terça-feira, 23 de julho de 2013

Geoegologia continuação



       



 geoegologia, continuação


                        Eliane Colchete


      Este texto completa os três blogs em que constam o estudo sob esse mesmo título, os quais foram interrompidos por impossibilidade de postagem por parte do provedor. Fato que tem pontuado várias elaborações de mesmo gênero. O mais importante na sua leitura é apreender que se trata da continuação de um longo estudo que através da minha proposta em teoria da cultura, venho realizando como releitura da história da cultura e epistemológica ocidental pós-feudal.
             Nessa proposta que intitulei "geoegologia" trata-se de examinar a auto-posição do Ocidente em seus referenciais epistêmicos e expressivos ao longo da história, e que suponho que se constroem pela visibilidade da margem (hoje "terceiro mundo"), assim importando em diferenças profundas de interpretação histórico-crítica desses referenciais estudados. A leitura geoegológica da história do ocidente lida com seus textos e estratégias em nível de sintoma "coerente" - em nível de sintoma, não de uma perspectiva lógica -  com suas práticas mutáveis de dominação.
          O estudo obviamente deve ser apresentado na íntegra, como qualquer documento desse gênero, mas como se trata de um andamento histórico o problema da apresentação fragmentada só se agrava.
             Não havendo satisfação para com os serviços de Internet no espaço de blogspot, tampouco sendo minha intenção caucionar qualquer "propaganda" de instituições ou pessoas vinculadas à apresentação do provedor, contudo não há opções viáveis num parâmetro que atenda a intenção de completar o estudo projetado para apresentação pública. Informo aqui que não me foi solicitada nem requeri qualquer administração de minha conta por terceiros.
         Também não fiz qualquer solicitação ao provedor. As tarjas informando que minha solicitação não pode ser atendida, mostradas quando acesso o blog, não tem sentido e eu gostaria que pudesse ser averiguada a fonte desse tipo de intervenção que considero ilegal, abusiva aos direitos da cidadania, mas como se sabe, não há meios de se saber quem são os responsáveis por tais atos do que considero banditismo como qualquer outro tipo de roubo, vandalismo, crime, etc. Mas já estou sabendo que não há legislação compatível neste país.
          Toda a relação da microinformática com elaboração de informação em nível de pesquisa ou literário,  portanto contrária ao paradigma de divertimento da imprensa, e também relativamente ao respeito à vida particular, está sendo altamente problemática neste país devido ao controle de mercado permitido às firmas pelo governo, por formas irracionais de tecnologia que não são controláveis coerentemente ao direito privado.
          Ao completar o estudo projetado, não é minha intenção continuar utilizando este recurso, mas paralelamente estou buscando resolução do problema de publicação - não havendo confiança tampouco no "pc" fora da internet - por algum meio profissionalmente viabilizado (além dos que já consultei e sabendo-se que não há como solver de todo o problema de segurança na internet).

                                        23/07/2013

  obs. o off-center pós-moderno se traduz por ex-cêntrico e não "excêntrico", mas como o computador "corrige" automaticamente o uso do hífen, tornar-se-ia aborrecido ter que reconfigurar a escrita toda vez.
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(continuação do blog "geoegologia3)


     1)


                      (escrito em 10/07; postado em 23/07)


        A pós-modernidade como crise da modernidade parece um tema raro. Praticado em Subirats, não o notei especialmente em Hutcheon ou Eagleton. Assim como também Jameson, estes trataram uma estabilização pós-moderna, em vez de uma "cultura da crise" como na expressão de Subirats.
          O tratamento subiratsiano da questão pós-moderna envolve uma recusa de visa-la como algo autônomo, ao mesmo tempo não negado como fenômeno em si. Sua oposição às demais formas de rejeição do "pós-moderno" está em que tanto Eagleton quanto Jameson configuraram objetivamente essa autonomia. Eles não buscaram assim o que Subirats antepôs em termos de dialética da modernidade como trajetória intrínseca de sua crise, aquelas "condições determinantes da cultura moderna, que a conduzem, por um processo intrínseco a suas leis, as situações históricas limites em que valores e objetivos últimos e, em suma, o projeto global da empresa civilizadora, revelam-se sem sentido." ("Da vanguarda ao pós-moderno", p. 71; ed. Nobel, 1987 - desde agora referenciado "vpm")
              É sintomático, conforme creio, que a geografia do contexto subiratsiano cartografe-se ibérica, em situação periférica uma vez que " os elementos propriamente utópicos, os conteúdos sociais revolucionários da arte moderna não poderiam encontrar, na sociedade espanhola de começos do século, um terreno seguro". ("A flor e o cristal, p. 74; ed. Nobel, 1988; desde agora referenciado " fc" ).
          A defasagem seria formal, não de ideias. À época de eclosão dos "aspectos mais sonhadores e alegres da vanguarda", na Espanha "Houve uma modernidade e um movimento modernista na poesia e na arte, mas não existiu a formulação de uma utopia social que ligasse o processo científico-tecnológico, os valores sociais da democracia moderna, a uma concepção de liberdade e da emancipação social" ("fc". p. 100).
         Subirats referencia especialmente os comentários de Ortega Y Gasset sobre a nova arte, para ilustrar o fato de que inversamente àquela formulação, na Espanha o que se procurou foi, nos termos de Subirats, uma "síntese de modernidade e tradição." (fc, p. 74).
          Otavio Paz  ("Os filhos do barro"; "Signos em rotação") havia sublinhado que o modernismo inverteu o vetor usual da importação cultural entre Américas e  Europa, uma vez que penetrou na Espanha por influência dos movimentos americano-latinos.
          Esse particular não é explorado por Subirats que aporta contudo ao importante insight de que o pensador da crise da cultura atual instalado numa posição ibérica marginal teria a vantagem de, estando forçado ao desengajamento da utopia tecnológica, agora que essa utopia degenerou tão explicitamente sentir-se à vontade para expor como real tarefa do presente a reconfiguração de todo parâmetro estético: "Pensar a Bauhaus numa cultura sem tradição radical e quase sem tradição moderna, no sentido crítico da palavra, signofica algo mais que despertar a recordação de um acontecimento passado. Creio que é (ou deveria ser) uma sugestão para novas formas de pensar na arte, na arquitetura e no terreno da educação". (fc. 100).
               Nesse ponto há uma listagem, a propósito da maneira que ele considerou a "mais ridícula e provinciana" da tematização do presente estético na "cultura espanhola (e ibero-americana), dos pontos então praticados: fim da arte, culto arcaico e fascista do herói, niilismo e a revisitação de Ortega focalizada no seu tema da desumanização da arte moderna e de pós-modernidade. Subirats pensa assim que esses pontos de questionamento evoluem num meio que na verdade estava apenas começando a entender a própria modernidade, e nessa conjuntura a reflexão a propósito de Gropius e dos modernistas "deveria ser mais que uma citação ou uma homenagem".
          Inversamente a essa geografia excêntrica, o que vimos tratando em termos do "consenso do corporate state" (ver Blog Geoegologia3) ostenta como mais exemplar uma consciência da centralidade da cultura ocidental onde o modernismo e seu ambíguo "pós" teriam progressivamente desfeito a possibilidade de alguma oposição, de algum "fora" - até chegar-se ao contexto da deslegitimação, como o do "Império" do capitalismo pós-soviético, em que como na expressão de Hardt "não há mais fora". Essa não é uma fórmula acomodatícia e sim o anúncio de uma dominação sem precedentes na história, mas ainda assim o escopo da proposta geoegológica que tenho desenvolvido é uma problematização dessa interioridade como algo realizável pelo pensamento na margem, sem contradições muito explícitas.  
          Mantendo-nos por agora apenas no âmbito do exame da mentalidade do corporate state, vemos contudo que o escopo de semear uma concepção de abrangência absoluta da cultura ocidental na acepção de estar fornecendo a fórmula de uma nova estabilização da própria ratio,  na verdade se mostra já contraditória quando se faz incidir o foco da pesquisa sobre as expressões efetivamente utilizadas para recortar a geografia do pós-moderno.
          Hutcheon escreve assim que, se para ela "o pós-modernismo não pode ser utilizado como um simples sinônimo para o contemporâneo", mas o que ele recobre especificamente se torna complexo referenciar, uma vez que é apenas "uma atividade cultural" detectável em várias formas de arte e correntes de pensamento do presente histórica, trata-se de algo "fundamentalmente contraditório, deliberadamente histórico e inevitavelmente político". ("Poética do pós-modernismo", p. 20; Imago, 1991, referenciado "ppm").
             Mas não se trata, por outro lado, de um "fenômeno internacional, pois é basicamente europeu e (norte- e sul-) americano." E ainda que tenha havido essa soldagem cultural inexplicável de Europa e ambiente interamericano,  Hutcheon está ciente de que alguns incluem "neobarroco" no pós-modernismo, tanto quanto o Novo Romance francês, sendo que quanto ao primeiro está inserido "numa cultura espanhola em que 'modernismo' tem um sentido bastante diferente". Sendo tais inclusões o que ela está evitando fazer para situar exclusivamente produções 
cuja homogeneidade será seu escopo
 demonstrar ao longo do livro, nesse ponto só podemos registrar a estranheza do situamento, e ainda que a temática do excêntrico como um dos tópicos que abrangem a conceituação hutcheana da singularidade do pós-moderno traz, sim,  para o contexto do mercado literário ocidental referenciais orientais e médio-orientais.
        Eagleton, cujo escopo mais geral é defender o universalismo ético que entende integral a qualquer base de entendimento marxista de todo fenômeno cultural e histórico, bem compreensivelmente não situa a problemática do pós-modernismo no espaço, somente no tempo.
            E Jameson pratica, por sua própria via de interpretação do freudo-marxismo a partir de Lacan e Althusser, primeiro um conceito de dominante ou lógica cultural que é temporalmente determinante como presentidade, mas depois reinsere a dicotomia centro-margem. Isso, a partir de seu recuo em relação ao anti-historicismo althusseriano, por onde os modos de produção ele volta a tratar em termos de "estágios" do desenvolvimento humano como um embasamento determinista da cultura como semióticas intrínsecas a cada modo.
            Assim o terceiro mundo vai ser tratado por sua defasagem em relação ao modo de produção do presente ocidental conceituável como "capitalismo tardio" e portanto exigindo a conceituação de suas semióticas próprias em termos de "pós-modernismo". O terceiro mundo, não tendo realizado o "capitalismo tardio" e ainda tendo como seu problema mesmo vir a conceituar a sua situação face ao capitalismo como à modernidade, exigiria portanto, para Jameson, um exame específico que ele realiza em sua tese sobre a narrativa do terceiro mundo como "alegoria nacional" - algo que não só não é pós-moderno como tampouco chega a ser propriamente moderno. Contudo aqui ocorre algo curioso porque por essa via, Jameson chega a uma sugestão parecida com a de Subirats.
          Postulando o terceiro mundo num estágio sócio-psíquico "oral", pré-edipiano, Jameson pensa que sua evolução pode ser direto ao que o ocidente, via marxismo, estaria buscando como deriva contrária a todos os aspectos negativos do capitalismo a serem refletidos naturalmente nas suas dominantes culturais correspondentes, modernista e pós-moderna. A margem poderia atingir a mentalidade e subjetivação revolucionárias sem passar pelo individualismo edipiano, burguês.
           A leitura dos blogs referenciados que precedem a este obviamente demarca a minha diferença de interpretação desse parâmetro, mas aqui seria importante observar que a  concepção dessa subjetivação ideal é a meu ver difícil em Jameson, de um modo que o liga, ao invés de separar, a temáticas bem pós-modernas assim como puderam ser conceituadas por Hutcheon principalmente na arquitetura de Portoghesi, como investimento coletivo do desejo ou expressão estética. Essa concepção ambígua do coletivo que é ao mesmo tempo emancipação do subjetivo é o cerne de várias dificuldades encontráveis na caracterização do pós-modernismo nos vários autores referenciados, e do que nos ocupamos a seguir.


     2)

            Se a pesquisa da pós-modernidade, conforme Subirats deveria ser a do que a esta evidencia como resultado, em vez de causalidade independente como nos demais autores referenciados, aquilo que se espera conceituar é uma natureza da modernidade em evolução, e Subirats de fato a conceitua em termos de um só  gesto utópico, ainda que matizado pela hesitação sobre como resolver-se.
            Sonhando com um futuro que o gesto presente concretiza, mas um futuro que o gesto mesmo ainda não é, estando imanente só ao seu próprio tempo, creio que se pode colocar a perspectiva subiratsiana notando que a modernidade não sabia a princípio se a utopia seria a de libertar o natural como para os primitivistas ou o cultural como para os cartesianos, mas ambos, cada um ao seu modo, mais pretendendo solver a oposição de natureza e cultura.
            Ora porque o homem seria como em Klee, sujeito apto a repetição da gênese cósmica em qualquer que fosse a expansão de uma intuição primeira do grafismo sequencial - ponto, linha, plano - ou porque seria a soma de funções automaticamente acopladas aos utensílios ou à disposição do quadro, como em Mondrian ou na Bauhaus.
         Aparentemente há assim apenas uma boa e uma má modernidades para Subirats, se o ponto de junção ao pós-moderno consiste em ter-se elevado ao paroxismo a utopia cartesiana da automação: "A redução lógico-matemática do processo criativo subjacente a essa nova estética não supõe, na realidade, um momento de ruptura em relação ao racionalismo estético que cobre a ampla evolução estilística do cubismo e do neoplasticismo até a arquitetura do 'international style'. O realmente inovador nessa perspectiva técnica e prática é o alcance quantitativo das suas capacidades técnicas". (fc. 25/26).
            Mas conforme leio a proposta de Subirats, o verdadeiramente decisivo é a ligação da vanguarda com o utopismo, a mentalidade de ser revolucionário e estar revolucionando não o presente, mas o futuro, a revolução não sendo algo fortuito mas a concepção de um novo modo de viver e sentir.
          Sendo assim, a trajetória da vanguarda dependeria de sua interpretação do Homem. Em todo caso, o Homem seria, na vanguarda, sua ligação projetiva ao futuro, mas ora ele se realizaria como subjetividade/
natureza /  intuição; ora como objetividade / artifício / razão técnica. Por outro lado, o resultado seria a exaustão da vanguarda per se, como utopia, se a automação total viesse contemplar o cumprimento das expectativas dessa segunda via, e esse teria sido o caso com o surgimento do pós-modernismo.  
          Mas a trajetória retroage sobre o conceito. Em vez de boa ou má conforme sua interpretação do projeto humano, só haveria uma vanguarda má, comprometida com a redução tecnicista do humano, e Klee seria ao invés de exemplo da interpretação modernista alternativa, o crítico e a rejeição de toda vanguarda em si mesma.
           A interpretação do Homem, contudo, para Subirats não se faz na vanguarda fora de um significado subjacente concedendo-se à criação artística. Se a própria arte é gênese cósmica, como em Klee, porque a vida é mais que máquina ao ver deste ("fc", 176), em todo caso Subirats permanece sustentando que em Klee o papel da abstração informa a utopia: " O mundo em que vivemos não é o melhor dos mundos possíveis, talvez tampouco o pior, mas pode ser diferente. A arte deve apreendê-lo na raiz elementar do seu movimento e, portanto, de sua transformação."  ("fc". 175).
             Mais à frente Subirats chega a reconhecer estar se corrigindo quando assume que "Klee não somente se distingue da vanguarda, mas seu pensamento se desenvolve num sentido diretamente oposto a ela". Esta é então uma asserção diversa segundo ele "do matiz da minha observação anterior". Mas ao que parece, ele não supera completamente a ambiguidade entre ambas, pois esse trecho se completa pela reposição - e não pelo desfazimento - da oposição feita antes. Conforme Subirats,  "a tradição abstrata que parte de Cezanne e Klee era a diferença entre a postulação de uma segunda natureza como realidade artística e artificial absoluta, e a concepção da arte como meio de aproximação ao mistério da criação universal." ("fc. 178).
           Ao referir-se a essa oposição paradigmática entre Cezanne e Klee, dentro da vanguarda abstracionista, logo a seguir da autocorreção citada, Subirats porém apenas a utiliza para elevar a oposição das duas vanguardas a um patamar mais importante ainda. Aquele de um "conflito cultural" entre "concepção tecnocrática de 'desenvolvimento' " contra o que se endereça "a luta da resistência coletiva para reencontrar a felicidade" tanto do sujeito quanto da sociedade     " no caminho que leva à reconciliação do homem moderno com a natureza".
         Na referência das páginas 96 a 98 de "fc", agora toda a contradição seria imanente à vanguarda, mesmo ou unicamente à má ou tecnicista. Pois o gesto utópico da via estética cartesiana não era para si mesma uma alienação, mas o caminho da emancipação.
            Assim por um lado toda a crise ou crítica não pode ser estruturalmente diferenciada como pós, da modernidade ela mesma. Por outro lado há o paradoxo da exaustão da utopia gerado pela posição crucial da tecnologia como projeto de emancipação numa época como a nossa, em que a compactação técnica da vida já teria se universalizado, mas não com a consequência da emancipação, bem inversamente. A ambiguidade da posição de Subirats chega a um limite intransponível quando se trata da arquitetura de Ferris, onde ele elogia justamente o que vem todo tempo atacando como a via da compactação funcional do estético.
             Em contraste com essas posições em "A flor e o cristal", o volume sobre "Da vanguarda ao pós-moderno" não se posiciona, mas sugere nova ambiguidade agora entre as perspectivas artísticas e arquitetônicas que nada acrescentam ao que meramente repetem da vanguarda, e uma teoria positiva do pós-moderno como código autônomo reconstituível ainda que isso seja considerado algo banal. O novo é apenas cronológico, mas por outro ângulo a teoria que lhe seria adequada como a algo consistente em si reza que se trata de um "código dessemantizado" que é, contudo, "um elemento significativo do vazio cultural do nosso momento histórico." (vpm, 100, 101).
        Assim Subirats utiliza o próprio Dadá como exemplo de arte semantizada de vanguarda, porque subsistiria nele uma "tensão interior" na "justaposição de elementos semânticos incongruentes entre si"; mas que "significado particular" pode restar de "elementos formais" que como sabemos são apenas palavras recortadas de um jornal e sorteadas aleatoriamente de dentro de um saco?
            Precisamente "neodadaísmo" é o nome pelo qual primeiro se identificou a Pop arte que para vários autores, como Jameson e Eagleton, é o referencial mesmo da emergência do "pós-moderno" e compacta toda a sua caracterização, enquanto Hutcheon com mais coerência sobre isso, supõe inversamente que o pop antecede o pós e tem pontos de contato com ele, mas não sendo a mesma coisa. Contudo, Hutcheon se contradiz ao primeiro aceitar que, não obstante considerar vagos os referenciais concretos de Jameson e Eagleton, eles estão falando da mesma coisa que ela ao situar o que é pós-moderno.
           Em Jameson e Eagleton a negligência da continuidade do dadá ao pop não chega porém a ser tão importante porque eles vão enfatizar precisamente o estatuto do "neo" como proliferação intrínseca ao pós-modernismo. Subirats tangencia o pivô dessa colocação, o "pastiche", contudo, como algo não propriamente pós-moderno. Para ele, a "estrita vontade de pastiche" ("vpm", 66) é algo próprio ao modernismo catalão ou ao pós-moderno norte-americano, e todos os dois seriam contrafacções à uma posição reflexiva de onde a obra deveria ter partido se conservasse o que afinal se revela como a boa utopia. Não o que propriamente se origina na vanguarda, mas com o Romantismo, em termos de uma arte voltada à expressão da subjetividade.
            Portanto, para Subirats seria a mesma crítica válida tanto para o tecnicismo negativo da vanguarda quanto para o pós-moderno como reificação dessa via, a saber, o princípio da esperança de E. Bloch, aqui aplicado como o que deveria devolver o sentido de sua ação emancipadora à humanidade. Mas a concepção do que é emancipação não chega a ser de fato especificada. O problema da vanguarda é que ela aliena o sujeito, mas a positividade da crítica é que esta o restitui como emancipação do social em relação aos projetos totalizantes da técnica.   
            Contra a concepção do pastiche como recurso dominante no pós-modernismo, Hutcheon situou ironia e paródia, por onde não teria havido solvência das questões de referência e do horizonte interpretativo do fenômeno estético, mas a transformação dos códigos em que ambos viriam se inscrevendo desde a modernidade. Esta é uma questão absorvente ao extremo, e seria oportuno desenvolvê-la somente após a posição de outros itens importantes no contraste das visões que estamos examinando, aqueles que se aglutinam em torno do problema mais geral da relação entre arte e política num sentido bem estrito. O pós-moderno implicou um novo situamento desse problema em função de uma relação da arte com o mercado, a partir da tematização da transformação do produto estético em mercadoria.
          A partir do momento em que desde o Romantismo a arte não é mais financiada por um mecenas aristocrático, mas há um envolvimento da produção com o público, esse problema já deveria estar subjacente. Ele nunca havia atingido o patamar de uma solvência do estético, ainda assim, pelo contrário. A vanguarda explorou, como em Duchamp, a sua independência de toda tutela espiritual ou pertença de classe. O pós-moderno ofereceu um contraste a isso desde a Pop arte, e é por essa perspectiva que surgiu a oportunidade para críticos como Jameson e Eagleton, de elevar o Pop ao patamar de referencial mais típico do fenômeno da pós-modernidade.

         Uma certa indefinição quanto ao que é pós-moderno se mostra subjacente mesmo quando se trata de um estilo tão determinado quanto o de Jameson. Ele pode reservar um espaço para conservações do modernismo no "pós", como de Duchamp e Roussel, mas não de Joyce e Picasso que teriam se tornado antitéticos à nova lógica cultural. 
            Em Hutcheon e Eagleton, Brecht é que cumpre essa função de elo com a anterioridade, mas se ambos os autores são tão nitidamente
antitéticos em suas posições que Hutcheon começa o seu livro anotando as oito teses de Eagleton sobre o pós que ela pretende rechaçar como pontos estruturantes do seu próprio texto, vemos que manter Brecht em comum só aumenta a vagueza do referencial.
      
              A concepção de arquitetura pós-moderna de Subirats é referencial de Aldo Rossi em termos de " repertório estilístico" que "somente sublinha retoricamente os elementos cartesianos da estética neoplasticista, esvaziados no entanto de seus conteúdos utópicos e de sua consciência social". (vpm, 74).
          Esse diagnóstico parece não combinar muito com o de Jameson em  "The cultural logic of late capitalismo" a propósito de Wells Fargo Court (Skidmore, Owings e Merrill), em termos de uma superfície que não parece suportar qualquer volume, como um estereótipo de autoposição independente de sua inserção num espaço concreto, resultando num efeito visual parecido com o monólito do filme "2001", de Kubrick. Sobretudo, trata-se de uma figura ao mesmo tempo geométrica, mas oticamente não-decidível ("oculary quite undecidable") entre ser retangular ou trapezoidal. Para Jameson essa arquitetura apela a um destino enigmático, uma mutação evolutiva, "tornando os antigos sistemas de percepção da cidade algo arcaicos e sem propósito, sem oferecer algo para por no lugar".
            O traço mais característico do pós-moderno conforme Jameson é assim sublinhado a saber, o contrário da racionalidade, uma estética "esquizofrênica" como um conceito que se utiliza da concepção lacaniana da esquizofrenia como signo não ligado a uma semântica, cujo fascínio e angústia provem desse isolamento atemporal. O que em Subirats está relacionado como anti-humanístico, a dessemantização pós-moderna e o tecnicismo/racionalização modernos, em Jameson se posiciona como duas coisas incompatíveis.
              Hutcheon, sublinhando a intenção coletivista da arquitetura de Portoghesi, chega a algo que não poderia ser mais oposto a isso. Aqui é a inserção do novo no conjunto urbano já existente e histórico o objetivo importante, e assim não há nada de especialmente revolucionário ou sem profundidade, puramente superficial, como tampouco há algo que devesse estar sendo proposto por si só, independente dos objetivos dessa inserção que tem a ver com a qualidade arquitetônica antiga das cidades italianas, eivadas de monumentos preciosos de uma cultura milenar.
             Assim ao referenciar o famoso Learning to las vegas, de Robert Venturi, Hutcheon não o demarca como algo oposto a Portoghesi, mas inversamente nota que se trata, para o próprio Portoghesi na expressão de Hutcheon, de algo "como uma maneira de envolver o observador, que está decodificando, no processo de geração de sentidos, por intermédio da ambiguidade e da polivalência".
          O essencial da ligação dessas propostas como uma só fórmula estética na concepção de Hutcheon a meu ver é a observação que ela registra de Jenks sobre que a estética de Venturi, inserindo-se no espaço capitalístico que já existe, expressa "de maneira tranquila, uma apreciação híbrida em relação ao american way of life. Um respeito relutante, não uma aceitação total". Sem compartilhar todos os valores dessa sociedade, contudo querem falar a ela, mesmo que seja de sua "discordância parcial" a tais valores.
          Um outro problema a sublinhar quanto à seleção do que é pós-moderno, foi o fato de Eagleton, Hutcheon e Jameson terem enfatizado a inclusão do pós-estruturalismo na rubrica do pós-modernismo. Mas os pós-estruturalistas não assim se incluíram a si mesmos. Para Deleuze o pós não era algo pertinente como transformação histórica e ele trata Warhol em Diferença e Repetição como exemplar do diferencial que usou amiúde para analisar o modernismo. Foucault pensava que toda a autonomia radicalizada que se pudesse obter seja na ciência como enfatizou Lyotard, seja na arte, era apenas o aprofundamento do processo definidor da modernidade em geral.
          O pop funcionou para Eagleon e Jameson ao menos, como um foco bem destacado, e por onde podemos haurir as linhas fortes do seu posicionamento.  

      3)

                                 (continuação do texto iniciado em 10/07; postado em    24/07


     
       I)

       Coerente com o que vimos até aqui, podemos afirmar que  a concepção de Subirats a propósito da modernidade, quanto à questão do sujeito surge diametralmente contraposta à de Jameson. Hutcheon quanto a isso se perfilaria à opinião de Jameson, mas para dela deduzir consequências bem opostas à sua negativa concepção do pós-moderno.
           Para Subirats, desde o Romantismo a arte buscava expressar a subjetividade. Não obstante as suas ambiguidades entre uma má, ou duas vanguardas boa e má; ou entre a utopia como boa ou má em si;  em outros trechos ele declina vários movimentos que apenas prolongariam o Romantismo e assim são enfeixados na mesma haura do que é consoante com o rumo benéfico do sujeito.
           Ele referencia assim o expressionismo, como a arquitetura de Niemeyer e Gaudi, os romances Macunaíma e Alexanderplatz, a pintura de Matisse e Giacometi, que teriam "como uma concepção definida da arte centrada nos aspectos expressivos, ideais e mesmo utópicos", podendo, como na "iconografia romântica" ser eclética, ter uma atitude sintética combinando gótico e barroco, elementos nórdicos e mediterrâneos, mas sem com isso chegar ao que já referenciamos de sua localização do pastiche. Neste caso, entre  o modernismo catalão e o pós norte-americano, não subsiste qualquer "sentido de autenticidade" que sempre se deve à obra ter partido "de uma posição reflexiva". ("vpm", 66).
              As vanguardas, alinhadas com o novo princípio tecno-funcional de cultura e civilização seriam o oposto desse expressionismo que podemos notar um conceito alargado para uma tendência muito ampla em vez do uso estrito do termo para o que foi um movimento histórico situado.  
               O denegado nas vanguardas conforme Subirats seria precisamente a dimensão individual, interior ("vpm", p. 76), como para uma nova experiência estética que nada simboliza melhor que o vidro e a metáfora do cristalino: purista, desornada e desinteriorizada.
              Jameson pensa, inversamente, que o "esvaecimento" da "dimensão espiritual" - como Subirats designa o processo da modernidade - resulta numa expressão aplicável exclusivamente à "lógica cultural" pós-moderna.
            Se Subirats conclui que a pós-modernidade nada recupera daqueles rumos recalcados pela modernista abstração geometrizante e racionalizante, mas ao invés radicaliza essa alienação, Jameson pensa que Munch, Van Gogh e a tradição adorniana da crítica realizam-se exemplarmente na imanência do "modelo hermenêutico" moderniswta que conserva a oposição de "dentro e fora", de modo que o interior podia manter-se subjetivamente i ndependente do objeto tal qual o "sujeito como um receptáculo monádico "("monadlike container"), dentro do qual as coisas sentidas são expressas pela projeção no exterior.
                Se a patologia dessa época freudiana cobria, para Jameson, a interioridade como possibilidade, é porque nela a interioridade normal existia, realidade de que não se trata mais na pós-modernidade, como tampouco razão ou projeto racional/público - ao que parece o que significa "coletivo" .
           Neste presente do capitalismo tardio aquele referencial do sujeito normal cujo lado sombrio seria a loucura de Van Gogh, a angústia e a neurose, foi deslocado pela esquizofrenia junto com burnout e  autodestruição pelo uso de drogas pesadas, em termos de "patologia cultural". Essa historicização da patologia tem um uso renovado em Jameson, mas cabe aqui notar que é algo já corrente não só na sociologia (Bastide); mas também na psiquiatria (Whittkover; Campaila). Jameson radicaliza essa via, ao estipular tipos irredutíveis no interior de um mesmo grande conjunto histórico-social (Ocidente/ contemporaneidade).
            Em Jameson o que se nota é a concreção da historicização da patologia mental num horizonte irredutível às tipificações funcionalistas, como horizonte de investimento na teoria do inconsciente. É importante notar que a diferença entre ambas importa justamente à concepção de subjetividade, uma vez que onde não se trata desse segundo encaminhamento há uma drástica redução conceitual no entendimento da entidade humana.
             Assim como se demarca em Campaila ("Manual de psiquiatria"), a entidade é reduzida a uma dualidade entre corpo físico e relações sociais. Este enfoque acompanha bem a sociologia da loucura como estudada por Bastide, onde inclusive se tem tentado acoplar a tipificação de Durkheim das formas de coesão social pressupostas como originalmente entre solidariedades mecânica (sociedade primitiva) e orgânica (sociedade moderno-ocidental) com algumas variantes como a solidariedade forçada (sociedade colonial, escravismo).
           Inversamente, no horizonte da teoria do inconsciente a entidade se produz como singularidade psíquica enquanto linguagem formada ao longo de seu percurso, na infância, de compactação dos impulsos físicos e complexos afetivos em atos socialmente articulados à tríplice aptidão de atribuir significados a coisas, atribuir papeis determinados a pessoas e auto-situar-se significativamente no mundo e na sociedade. Essas competências vão sendo conquistadas ao cabo de processos que implicam a apropriação psíquica, na forma de atos sentidos como nossos, dos impulsos físicos e orgânicos mais básicos desde o nascimento.
           Aqui posiciona-se um motivo profundo das ambiguidades que se seguem do exame da teoria recente. Pois o funcionalismo e hermenêutica, ao contrário do que se poderia esperar dado o exposto, é o discurso que tem se voltado contra as teorias do inconsciente acusando-as de anti-humanistas, e essa acusação sendo feita  como se fosse por parte dos defensores do sujeito, da significação como identidade socialmente  significada,  etc.
          O pivô desse confuso resultado é a linguagem. Uma vez que para a teoria do inconsciente trata-se de pesquisar como a sintaxe, que é autônoma e digamos, maquínica ao invés de semântico-pragmaticamente dependente, se forma ao longo do percurso da infância tal que vem a se interiorizar tão completamente. Nós realmente não o  controlamos conscientemente, do contrário poderíamos escolher configurações fonéticas independente das únicas que nossa língua nos permite pronunciar e que foram as selecionadas na mais remota infância, mesmo antes de aprendermos a falar enquanto aptidão semântico-pragmática (mais ou menos) consciente.
          Como a hermenêutica, a fenomenologia e o funcionalismo rejeitam essa linha de pesquisa porque não entendem a independência da sintaxe, compreende-se que ao mesmo tempo se situem defendendo a humanização ou subjetividade, mas por outro lado não tenham qualquer parâmetro da singularidade individual como entidade conceituável. A ambiguidade dessa posição é obviamente apenas aquilo com que se pode contar, mas vemos que o referencial não é tão simples que se possa por outro lado repartir o campo em duas metades, funcional e estrutural, pois em cada um deles não há uma receita única e sim a problemática dos vários proponentes a partir da opção mais básica que situa a sua orientação.
            Além disso há o fato de que uma vez que se trata da pesquisa do inconsciente, o determinante do sentido não mais está no uso consciente que fazemos dele. Assim a noção comum de "sujeito" como indivíduo capaz de totalizar para si as suas concepções e significados é a própria ilusão que a teoria tem que explicar como decorre do determinante psíquico.
         Não é que a auto-apreensão como ego diferenciado das coisas e demais pessoas seja necessariamente ilusória, mas sim os aparatos de poder que vão sendo embutidos tal que o ego se torna disponibilizado justamente ao contrário de sua autonomia psíquica, profundamente fascinado e identificado com esquemas objetificadores, hierarquizantes. No limite, a loucura foi definida por Lacan como a confusão de um rei que acreditava ser substancialmente rei.
           Ao longo do nosso estudo examinamos vários tópicos da história da psicologia como de outros referenciais afins, e repeti um tanto exaustivamente as diferenças teóricas que vem subsistindo, especialmente entre estruturalismo e pós-estruturalismo, em termos de horizontes da teoria do inconsciente tal que o primeiro, com Lacan, Lévi-Strauss, Althusser, e outros, definem o processo psíquico como necessariamente formativo do ego, enquanto o pós-estruturalismo de Derrida, Deleuze e Foucault entre outros coloca o ego, por assim dizer, entre parêntesis e deduz que o processo formativo é em si autônomo conforme a sua singularidade, mas que pode ser condicionado por um discurso social.
          Jameson está instalado problematicamente, pois de fato filiado ao estruturalismo lacaniano, politiza o inconsciente em três extratos de leitura (simbólico/singular; social/luta de classes; histórico/modo de produção) que extrapolam o limite que o próprio Lacan traçou dessa politização possível a partir do fato de que em Lacan toda ela é a priori determinada pela assimetria dualista do gênero sexual. ( Estou referenciando o "inconsciente político" jamesoniano assim como encontrei na Internet, supondo que o texto é autêntico).
           Mais a frente espero tematizar mais minuciosamente essa singularidade da posição jamesoniana, ligando-a à algo de semelhante que podemos constatar nos demais autores como algo que contrafacta a veleidade deles de não serem pós-modernos, não terem um posicionamento irredutível ao que vinha se verificando, na medida em que podemos surpreender um recuo comum, bastante datável, com relação a posições teóricas já desde antes  estabelecidas como críticas da metafísica, pós-classicismo, etc. Assim aqui seria interessante notar que o sujeito da modernidade, mesmo antes do século XX não é o "monádico" leibniziano, mas o que coloca o problema de sua formação na cultura, desde o Romantismo.
             O problema, que também ventilamos em suas várias modalidades de expressão, é que o ego universal no estruturalismo, tanto quanto a identidade de sentido do funcionalismo, é descrito a partir dos referenciais moderno-ocidentais. Assim as defasagens culturais, se existe um processo psíquico de destinação universal egológico, vão ser reduzidas a estágios anteriores em relação ao sujeito ocidental moderno. No funcionalismo essa anterioridade continua existindo, só que paternalizada, como "bom selvagem" não num sentido propriamente rousseauísta. O pós-estruturalismo, como venho repetindo, foi uma tentativa de ultrapassar o sócio-evolucionismo, mas não chegou realmente a cumprir esse objetivo.
         O pós-modernismo tem sido o locus em que esse problema se tornou paroxístico, uma vez que corresponde ao situamento histórico da ruptura para com a unidade de produção cultural ocidental. O mercado internacional se tornou habitado por produções de todos os continentes, não mais dispostas a se deixarem reduzir ao percurso único da ocidentalização, mas isso é claro, muito relacionado ao fato de que nossa época não mais conhece as fronteiras de antes e esses lugares que se tornaram produtores culturais são os de maior penetração do capitalismo e desmantelamento da autonomia da cultura local.
                 Em contrapartida, do Pop em diante é no interior do próprio "ocidente" desenvolvido que os referenciais marginalizados (homossexuais, mulheres, etnias heterogêneas, subculturas alternativas, etc. ) começam a produzir formas de expressão que não mais almejam provar-se capazes de reproduzir a ocidentalização, mas sim descobrir e expressar as próprias singularidades.
             Como já ficou exposto nos Blogs do estudo que antecedem a este, a meu ver há uma demarcação no interior do pós-modernismo, conforme antes e depois da globalização, o que tratei em termos de pós-modernismo ambíguo e não-ambíguo. Aqui seria absurdo ter que repetir toda a formulação, pois solaparia o espaço do que estamos examinando - desde então - como os referenciais do pós-modernismo ambíguo, como um último foco discursivo não obviamente confrontado com a deslegitimação da teleologia (sócio-evolucionismo) sintomaticamente formativa do discurso do Ocidente como um Si ao mesmo tempo autônomo e só disposto como Sujeito da história teleológica alterizante da margem ("primitivo"/ terceiro mundo) a dominar.
            Nesse ponto torna-se oportuno retornar ao tópico referenciado.

     II)

                  Hutcheon pensa, um pouco ao modo de Subirats, que o modernismo ou a vanguarda abole o sujeito por sua índole formal e textualidade autotélica, mas não como se o pós-moderno aprofundasse essa via. Assim, de um modo geral ela é mais afim à concepção jamesoniana de uma ruptura histórica.
             Contudo, como nenhum dos dois, para Hutcheon o pós-modernismo restaura a subjetividade, não obstante numa dimensão coletiva de sua problematização e num processo de partilhamento da sua expressão construída tal que a reincorporação da sintaxe intacta calcula produzir certos efeitos na recepção e assim provoca-la, propriamente instalá-la como nível imanente a todo expresso/textual.
         Nenhum desses autores colocou o que para mim seria o mais importante, que consiste em ver que a quebra da sintaxe e os esquemas formais da vanguarda podem ser lidos como investimentos naquele nível do determinante formativo psíquico onde os signos não são já ligados. Mas assim seria problemático instaurar a ruptura pós-moderna.
          Em certo sentido, se pode afirmar como os pós-estruturalistas fariam, que o pós-modernismo vem apenas continuando esse diálogo entre o estético e a episteme que define a "modernidade", mas tendo havido nesse interim profundas alterações epistemológicas, que os pós-estruturalistas não alcançaram, e dentre as quais aquelas que vem inviabilizando a unidade teleológica ocidental, acarretando investimentos novos no parâmetro estético tais que aparentemente teríamos novamente a textura, a comunicação realista, etc.
          Vemos que em Hutcheon, a ironia é a figura encarregada de desfazer tais aparências. O que parece uma comunicação direta ou restaurada com o leitor suposto generalizado é na verdade construção estritamente textual de sua posição singularizada pelo efeito da leitura. Para ela, nós leitores não tornamos a ser reduzidos ao sujeito universal para si objetivo (realista) ou interiorizado (romântico) - que atribuí ao "sujeito" de antes da psicologia e da psicanálise do século XX vir mostrar que como autoimagem é construído/desenvolvido, em vez de originário. O pós-modernismo não restaura o sujeito generalizável, mas ao contrário do modernismo, não aliena a sua situação singular.
           As próprias categorias da construção aprofundaram o questionamento de sua originareidade, de modo que agora o questionamento invade os níveis semântico-pragmático, em vez de restar a problematização somente em nível sintático. A ironia consiste em que o pós-modernismo, ao contrário do modernismo, começa por reconstruir a aparência que ele vai, depois, desconstruir desde a posição de leitura possível. Assim a ironia é a substância da paródia pós-modernista, porque aquela reconstrução não pode ser a de uma realidade em si, só pode ser a dos textos que informaram aquela realidade e que então vão ser encontrados parodiados (reescritos) no pós-moderno. Mas essa reescritura é irônica por não ser a do significado textual, e sim a desconstrução dele.
            Para Subirats, a meu ver, seria afirmável que a repetição crua ou o pastiche do modernismo ironiza mas num sentido negativo, o que naquele sempre permanecera de positivo, o gesto utópico de estar planificando o bem estar social futuro, ainda que pelo caminho que hoje podemos compreender errado, do tecnicismo. A ironia subiratsiana consiste em que tudo parecendo igual, não há gesto utópico possível - se ele era a emergência do fermento da utopia, a novidade revolucionária, em política como na forma.
          Nisso o  encaminhamento temático de Subirats ressoa com o de Eagleton.
       (postagem de 25/07) / Ambos compartem, com relação à modernidade, a opinião de que generalizou a figura do "vórtice"  (Eagleton) ou do "torvelinho" (Subirats) como emblemas "do caos e do surgimento do mundo" na opinião de Subirats, o que para Eagleton é a figura do próprio modernismo sobre si mesmo como transformação da temporalidade contínua em abrupto corte do novo. A metáfora expressa é a da irrupção do elemento descontínuo no tempo.
         Subirats capta essa interpretação na forma de uma análise da metáfora militar ínsita ao termo "vanguarda" enquanto uma real e documentada glorificação da guerra , como revolução saneadora como algo que teria sido próprio ao modernismo de inícios de século do mal-estar social daqueles tempos de opressão xenófoba patrocinada pelo monopolismo capitalista dos impérios neocolonialistas. Isso é de fato algo patente em T. E. Lawrence, por exemplo, e um manual de história local ilustra seu capítulo sobre os antecedentes da primeira guerra com a carta de uma jovem confessando o seu desejo de haver a guerra, e como algo típico de sua geração.
              Assim o conceito de gesto utópico que vimos em Subirats para o modernismo combina com a expressão de Eagleton em "Against the grain" ("ag", texto de xerox): "Se o modernismo vive sua história como peculiarmente, insistentemente presente, também experimenta uma sensação de que esse momento presente é de algum modo futuro , em relação a que o presente é nada mais que uma orientação". 
        Eagleton chega a registrar assim que o vórtice "representa essa consciência ambivalente" entre as instâncias da temporalidade, mas como tenho enfatizado, a ambivalência ou ambiguidade é o que estamos constatando inerente ao discurso dos defensores do modernismo frente ao "pós", tanto quanto o fenômeno da confusão onipresente nessa época entre "discurso" pós-estruturalista e "ideologia" como conceito em trânsito desde Marx - como algo que deveríamos tentar compreender em termos do que Robert Gorman conceituou como "visão dual" (cf. blog "geoegologia3").
        Assim, Eagleton nesse texto de fato apresenta uma contradição notável em sua caracterização da modernidade. Concorda a princípio com Peter Burger em que "um dos maiores impulsos" da vanguarda revolucionária foi "desmantelar a autonomia institucional da arte, apagar as fronteiras entre cultura e sociedade política e fazer voltar a produção estética ao seu lugar não privilegiado e humilde, dentro das práticas sociais como um todo". Contra isso, o pós-moderno teria se insurgido, mas pelo vi és da caricatura da integração arte/vida de modo a transformar a arte em nada mais que mercadoria, como os warholianos "sapatos e latas de sopa" Campbel's.
           Mais à frente do mesmo texto, contudo, o modernismo é reapresentado como produtor de "um objeto autotélico misteriosamente livre de toda barganha (truck) com o real", posto que suas rupturas para com referente real e história seriam estratégico ao objetivo de "resistir à mercatorização" e "rechaçar essa redução ao status de mercadoria" que é própria do exemplo warholiano como de todo pós-moderno.
          O objeto autotélico da arte modernista seria então dividido, pois intentando abstrair sua baixa realidade material, sua vergonha de ser uma coisa bruta, auto-idêntica. Mas nada que existe materialmente escapa a esse status de materialidade e inserção ao histórico momento do rise capitalístico. Não escapando o objeto autotélico modernista, portanto, à "ironia devastadora" ("devastating irony): "O artefato modernista autônomo, auto-evidente, impenetrável, em todo o seu isolado esplendor, é a mercadoria como fetiche resistindo à mercadoria como objeto de troca (Exchange), sua solução para a reificação [sendo] parte do problema em si mesmo (of that very problem)."
           A proximidade entre Subirats e Eagleton se preserva ainda mais assim, posto que a pretensão política modernista de coordenar arte e vida para Subirats era apenas a liquidação da própria "arte, sua dimensão poética e transcendente" conquistada desde o Romantismo e preservada nas linhas que vimos Subirats opor ao avant-garde bastante arbitrariamente porque dos exemplos que estudamos por ele afiançados, nada mais representativo da vanguarda costumeiramente tratada.
          Ora, ainda assim, para ele o dadá promoveu a liquidação da dimensão estética, o que o movimento esperava obter pela solvência do objeto em mero produto qualquer reaproveitado do comércio vulgar, mas sem negar "a obra, seu valor ritual e social". Isso, ainda que essa "obra" houvesse sido daquele modo reduzida ao "seu caráter fetichista e mercantil" em que se inscreveria até "sua dimensão sagrada como objeto de sacrifício para consagração das novas regras sociais".
      Assim, contudo, quando Eagleton e Subirats aportam à conclusão comum, como de que a arte se t ornou na pós-modernidade uma "forma de produção mercantil" entre outras, na expressão deste, somente para ele isso, como o Dadá, expressa-se culminação de um mesmo processo de "falsa consciência artística" definidor da vanguarda como anti-espiritualismo e anti-romantismo.
          Para Eagleton, inversamente, porque ele separou "fetiche" e "valor" (apenas pecuniário) com relação ao mesmo referente, a mercadoria, a pós-modernidade torna-se um projeto substancialmente oponível ao modernismo: "A reificação modernista - a obra de arte como fetiche isolado - é agora substituída pela reificação da vida cotidiana no mercado capitalista". A mercadoria deixa de poder ser arte enquanto "aura mágica" para sê-lo como "mecanicamente reprodutível."
         Vimos que essa transposição Subirats conceituou exatamente, mas entre a arte inspirada do Romantismo e a vanguarda como tudo que dela poderia ter se seguido. Sua contradição está em que conservou uma teoria do gesto utópico contido mesmo na vanguarda, ausente nos dias de hoje.
              A contradição de Subirats pode ser interpretada como a que ele introjetou da própria estética enquanto um processo histórico intrínseco ao desenvolvimento capitalístico, cindido entre ser ao mesmo tempo um processo de progresso técnico e de empobrecimento das possibilidades existenciais do humano. Essa cisão parece extrapolar uma explicação determinista leninista da contradição do capitalismo enquanto um progresso que no entanto não é distribuído homogeneamente mas implica a seleção da classe consumidora ideal (burguesia).  Para  Subirats, as manifestações recentes da arte "subsistentes somente com um ritual conformista, assumiram esta liquidação [do sagrado na arte] desde a pop-art e a minimal-art até a arte conceitual, sob o signo de uma filosofia niilista ou do simples cinismo" (vpm, 79).
          Em Subirats há a consciência de que houve recentemente a evidência negadora das promessas contidas antes na técnica, mas não o observa para fazer dessa evidência o locus de uma ruptura histórica, processual.
            Entre o modernismo e o "pós", Eagleton aposta em que este parodia o modernismo para ironizar impiedosamente o que Subirats designa sua utopia do futuro racionalizado/ emancipado,. o que para Eagleton foi apenas um compromisso da arte contra não tanto sua mercatorização como sua vulgarização.
           Otavio Paz sublinhou coerentemente a ausência de projeção iconoclasta do passado como o que instaura o pós-moderno em termos de algo irredutível  a uma modernidade definível pela tradição do novo, ressoando com o que vimos tanto em Eagleton quanto em Subirats.
           Para ele, contudo, há somente um caminho desde o Romantismo ao Modernismo, aquele pelo qual o artista se transformou num hagiógrafo,
conscientizou-se de ter sido sempre o veículo pelo qual toda tradição espiritual pode ser mediada ao público que só se identifica com seus signos esteticizados. Mas isso implicou, na vanguarda, uma consciência adicional de que assumindo seu papel mediador, o artista tornava-se emancipado da tradição extrínseca a que servia, e ele mesmo agora devia ser o messias de sua própria novidade estética, existencial, política. A ausência do novo na pós-modernidade é na verdade um paradoxo, pois é em si uma novidade ruptora da tradição do novo que definiu o modernismo onde a cada movimento tratava-se do porta-voz de um novo imaginário correspondendo a uma nova escatologia. 
           Para Hutcheon, como vimos, essa ausência do novo ou das bombásticas retóricas da ruptura na arte recente é apenas uma mudança de estratégia: onde o modernismo começava por destruir, o pós-modernismo começa por restaurar, mas se aquele o fazia para depois instalar sua novidade, este restaura a situação enquanto alienadora, repetindo os signos que a instauravam de modo apenas a que eles agora aparecem na sua função alienante; isso para em seguida situar o sujeito alienado como a priori mesmo de toda alienação feita às expensas dele como caráter do poder de aliená-lo.
         Pelo contrário, Eagleton sustentando contra Jameson e como Hutcheon que o pós-modernismo não é pastiche, mas paródia, não vê nisso porém qualquer estratégia saneadora, mas sim supõe que o pós-modernismo parodia algo específico, o próprio modernismo, para ironizar impiedosamente o que Subirats pensa em termos de utopia e Eagleton, convergindo com essa perspectiva, acentua contudo como o envolvimento existencial, trágico, do artista modernista, ressoando com a concepção de Paz. Poemas de Maiakovski lido na factory de Warhol, para Eagleton, não soaria como nada mais que farsa, não poderia conservar coisa alguma de sua aura existencial.
           Jameson utiliza-se do pastiche para  neutralizar qualquer continuidade do pós ao modernismo. Contrastando um mesmo tema pictório dos sapatos em Van Gogh e Warhol, acentua somente que não há ponto de convergência entre ambos, pois no pós de Warhol não subiste qualquer ponto de início do que seria uma mensagem ou narrativa temática do objeto, à Van Gogh: sapatos de camponeses, inserção da coisa num mundo significado e não qualquer, e consequentemente sua humanização auspiciada para esteticamente reinterpretar-se em termos do que faz o trabalho pelo homem, propiciando a ele o tornar-se seu um mundo.
           Outrossim, os sapatos são tratados por Warhol como signos esvaziados de contexto, inscritos numa superfície pura - o que tecnicamente sugere a definição lacaniana da esquizofrenia. O importante para Jameson, como também já assinalamos, é que nisso o dilema modernista do indivíduo (interioridade), que consistia em que se ele existia, então existia também a possibilidade de sua angústia e inadequação a mediar-se no mundo, foi ultrapassado. Mas se esse dilema deixa de haver, porque o indivíduo deixou de ser o canal da coerente interligação de signos numa linguagem temporalizante e interlocutiva, há agora apenas o esplendor do signo isolado em seu eterno e indestinável fulgor, não há mais sentimentos, a arte nada deve expressar. O pós-modernismo não é estilo, é a anulação de todo estilo possível. Há a deserção da afetividade ("the waning of afect") por um lado, mas sua fragmentação por outro lado. Em vez de um sentimento coerente onde vários aspectos sensíveis são componentes, só há "intensidades" que são agora "flutuantes, livres e impessoais" tendendo ainda a serem "dominadas por uma espécie peculiar de euforia".
           Jameson chega, num outro trecho, a aceitar que o signo esquizofrênico é mais belo e intensamente vivido, mas o preço a pagar é demasiado alto, posto que implica a impossibilidade da temporalização com sentido da experiência própria, ou seja, para ele implica a desumanização de si.
          Utiliza-se do relato da experiência de um esquizofrênico - que subitamente viu-se impossibilitado de sentir como coerentes as impressões à sua volta e todos os estímulos sensíveis lhe apareceram como absolutamente inexplicáveis - para exemplificar o fato de que o que a pessoa registrou ter sentido a partir disso foi nada mais que desespero, tendo-se posto a chorar.
           Para Jameson, o pastiche é definido como o que não conserva com seu referente nenhuma relação de transcendência tal que pudéssemos realizar o deslocamento de um ao outro, ele não suscita necessariamente o riso motivado. Não é uma lição de moral sob um registro sardônico.
Apenas desfaz a unidade para si ou como performance de sentido do referente, utilizando-o rigorosamente como um código - sistema ou jogo - que pode então funcionar indefinidamente no vazio, sempre que aplicado os mesmos princípios estruturantes, às expensas de um sentido intrínseco veiculado como mensagem realmente destinada.

          Ainda que Jameson tenha citado simpaticamente a Linda Hutcheon, na verdade ele está se antepondo ao que ela mais valoriza, que é justamente essa mudança de concepção da linguagem como multiplicidade de gêneros e códigos, em vez de unidade de significação.
          A meu ver, o pastiche é um recurso caro ao pós-moderno, mas não como Jameson, eu concebo o pastiche como a mudança de um gênero discursivo para outro. Como desenvolvi em minha publicação independente  sobre "O pós-moderno: poder, linguagem e história" (ed. líteris/quártica), exemplar dessa concepção seria a canção de Chico Buarque sobre o "anjo safado/ o chato de um querubim", transpondo o erudito poema de Drumond à ótica e linguagem de um popular que nunca teve sobre si a concepção centrada oriunda das expectativas de satisfação do sujeito burguês. A transposição de Adélia Prado sobre o mesmo poema de Drumond seria um exemplo, a meu ver, de paródia, pois conserva-se na mesma imanência formal do sujeito lírico.
          Nesse ponto torna-se oportuno observar como a estimativa sobre a mudança na concepção de linguagem, negativa em Jameson e positiva em Hutcheon, afeta todo o situamento metodológico de ambos. Jameson, numa entrevista que recolhi na Internet (também supondo autêntica), declarou que para ele o marxismo conserva-se na atualidade como o único referencial que poderia contemplar o seu desejo de conservar a unidade metodológica nas ciências humanas.
           Também Eagleton, já no seu "As ilusões do pós-modernismo" aproveitou-se da crítica ao novo espaço da arte para defender a manutenção de perspectivas coerentes com o que restaria hoje aplicável em termos do compromisso com a unidade da luta de classes de que decorreria uma série de posições epistemologicamente contrárias à desconstrução dessa unidade determinista da História em humanities.
            Mas nisso encontramos mais uma contradição, além de uma ausência significativa de resposta às objeções expressas que foram feitas nesse interim à unidade determinista como sócio-evolucionismo, pois elas não são na verdade examinadas. Em Against the grain, Eagleton invectiva Deleuze como um metafísico essencialista - daquele modo habitual dos marxistas acusarem outros de idealismo, mas agora como numa crítica à sua concepção do desejo não-edipiano. Enquanto em As ilusões do pós-modernismo Eagleton se declara, entre outras coisas, "essencialista", defendendo o referente estável da proposição como universal de linguagem.
        Em Hutcheon, a avaliação positiva das mudanças na concepção de linguagem e história a partir do excentramento do sujeito da enunciação em relação ao único até aqui expressável como masculino, ocidental, adulto, proprietário - conforme diria Deleuze - conduziu no entanto a uma valorização da contradição como um método  em si mesmo.
          Isto termina por ser coerente com o fato de que Hutcheon resiste a operar uma triagem metodológica entre intencionalidade hermenêutica e discurso pós-estrutural, persistindo numa concepção pela qual ambos seriam basicamente o contrário do que ela posicionou como o fundamento da mentalidade modernista, o formalismo estruturalista.
          Realmente existiu, antes dos anos dois mil, uma leitura do pós-estrutural como anti-estruturalismo, mas então os que assim se posicionavam nos anos noventa, como um dos meus professores na Uerj, Ivair Coelho, recusavam que Foucault e Deleuze fossem tratados como "pós-estruturalistas" o que não significava por outro lado confundi-los com a hermenêutica.
       Eu não creio que possamos abstrair a ruptura desses autores que hoje são geralmente rotulados "pós-estruturalistas", com ou sem razão, para com o estruturalismo que chamo ortodoxo, de Lacan, Lévi-Strauss e Althusser, mas penso que eles mantem a mesma metodologia, apenas recusando o tratamento sistêmico para um paradigma universal.
           Em todo caso, não me parece que seja somente essa problemática o que implica aquilo que estamos examinando (ver Blog Geoegologia 3) como os diferentes modos pelos quais um bloco teórico de ideologia-"discurso" - o que para estudiosos dos "pós-estruturalistas" seria insustentável - não só foi proposto como jamais naquele momento pressentido como um híbrido, uma visão dual, em vez de algo profundamente coerente com a novidade metodológica de Foucault, Deleuze e Derrida.
          Assim, antes de examinar o método contraditório defendido por Hutcheon como aquilo que o pós-modernismo teria produzido positivamente, creio que seria oportuno aproximar a crítica da visão dual que instalada por Robert Gorman, está aplicada ao contexto mesmo do marxismo humanista e sociologia-fenomenológica, em termos de problemática intrínseca ao momento histórico-epistêmico em que a hermenêutica existencial parecia insuperável em termos de toda sanidade conceitual politicamente defensável.

      4)

             O exame que vimos desenvolvendo mostrou que ao mesmo tempo sendo praticada performaticamente, a ambivalência ou ambiguidade foi tematizada de modo negativo ou positivo como algo sempre relacionável à problemática cultural desde a modernidade. Mas esses encaminhamentos não chegam a conceituarem uma dualidade inerente, como Gorman tencionou explicitar.
          Entre o marxismo ortodoxo e a fenomenologia que instrumentou o marxismo em sua versão humanista, ele situou duas "metodologias convincentes" ("A visão dual", ed. Zahar, p. 188), que podem igualmente facilitar "o exame e explicação dos fenômenso sociais". Mas de fato, segundo Gorman, "nenhuma convence" a partir do exterior sobre seus próprios parâmetros teóricos. Essa mesma observação abrange o terceiro vetor da análise de Gorman, que já examinamos (ver Blog Geoegologia, continuação) como o do naturalismo cientificista (neoempirismo). Temos assim campos explicativos imanentes, cada um pretendendo-se totalizante do horizonte fenomênico, mas tecendo-se a partir de uma crítica dos demais que não pode se demonstrar final.
          A questão crucial na concepção de Robert Gorman, porém, é que um amálgama humanizante do marxismo - como os que vimos nos blogs anteriormente estudando - esbarra com o fato de que o marxismo em si é epistemologicamente objetivista. Assim o verdadeiro impasse da ciência estaria residindo entre subjetivismo de signo humanizante e objetivismo auto-posicionado como anti-idealista e  só assim desalienante.
            A fenomenologia marxista como o existencialismo sartriano e a Escola de Milão liderada por Enzo Paci, se torna questionada por Gorman na medida que, como ele diz de Paci, quer manter uma "análise fenomenológica da subjetividade transcendental como se os resultados fossem, em algum sentido objetivos, intersubjetivamente válidos" (p. 182). Mas como para o segundo, também para o primeiro, em seu "enfoque da ação autodefinida" o que resulta é uma "ambiguidade desorientadora", ou mais precisamente um tipo de "esquizofrenia intelectual" (p. 184).
          Vemos que o tópico não é uma digressão em relação ao que vimos expondo, se puder ser demonstrado que os encaminhamentos habituais examinados foram manter-se precisa e esquematicamente entre ambos, objetividade/ subjetividade, sem pretender renunciar a nenhum dos dois mas sendo que não são realmente conciliáveis. A impossibilidade dessa renúncia é o que espreita seja a rejeição da ruptura estrutural em relação aos intuitos da fenomenologia-hermenêutica, seja a recusa de confrontar o pós-estruturalismo como parâmetro objetivo e ao mesmo tempo diverso do marxismo.
         Assim obter um esquema geral da ambiguidade epistemologicamente subjacente a todo o percurso da filosofia política - desdobrada então como "ontologia social" - no período de mutação entre o modernismo e o pós, se torna importante.
          Por um lado, conforme Gorman, Paci intenta complementar Husserl que sempre teria tentado atingir "as coisas em si percebidas subjetivamente em troca de simples representações sociais delas" (p. 182), mas sem poder assim de modo algum "descobrir os critérios de objetividade na sociedade", ainda que lográ-lo correspondesse ao paciano intuito.
          Por outro lado, Gorman considera impossível discernir qual das duas tendências expressas na linguagem sartriana realmente compacta-se como sua filosofia única, o dilema  inteiro expresso na afirmação de Sartre de que se "só a única realidade prática é dialética, a força motriz de tudo é a ação individual". Mas o segundo período da frase resultaria num subjetivismo puro, enquanto o primeiro induz, conforme Gorman, a que "o partido institucionalizado é, e deve ser, onipotente".
          Aqui a ambiguidade entre objetivo e subjetivo se desdobra num questionamento do conceito fenomenológico uma vez tornado marxista, da intersubjetividade, pois ele determina desde a perspectiva solipsista e/ou analítica do teórico aquilo que seria a subjetividade dos outros - tanto aquilo que é suposto realidade em si.
            A confusão de conceito puro e realidade em si é em princípio o que Gorman atribui como visão dual ao próprio Husserl, assim como ao primeiro dentre os teóricos sociais que almejaram aplicar Husserl à sua área de investigação, Alfred Schutz: "A visão dual que cegou Shutz e seus seguidores às realidades filosóficas de sua situação é reproduzida nas perspectivas desse grupo de neomarxistas orientados pela fenomenologia."
          Paralelamente, o cientificismo objetivista do naturalismo/neoempirismo foi confrontado severamente por Gorman - como vimos antes -  enquanto limitado pelos teóricos sociais que consideram as questões de humanities inviáveis à metodologia do referente universal.
           Como é bem do conhecimento dos fenomenologistas e Gorman enfatiza, a obra de Husserl se cinde desde que do Ego transcendental como consciência absoluta pura, ele se propõe conceituar o Lebenswelt ou mundo da vida, e assim ou as duas partes da obra são incompatíveis ou alguma deve se entender propedêutica à outra: o mundo da vida à fenomenologia transcendental da consciência.
               Mas mesmo se for assim, "a fenomenologia transcendental de Husserl difere em aspectos básicos da filosofia existencial" como a de Heidegger em diante, pois o nível de objetividade em Husserl, em vez do Lebenswelt, é a apoditicidade do Ego transcendental.
             Gorman nesse ponto cita o sociólogo Theodore Abel (p. 152), para demonstração do óbvio idealismo de Husserl: "Sua afirmação de uma convicção absoluta não é científica...". E assim, "se uma afirmação feita por um fenomenologista não é aceita como evidente por outra pessoa, ele tem apenas que acusar o seu oponente de uma contemplação imprecisa, mas não tem maneiras de convencê-lo da validade de sua afirmação...".
              O problema se torna insolúvel quando se trata de humanities, pois nesse caso o próprio referente não é dado e precisa ser conceitualmente construído. Mas os naturalistas se contentam com generalidades objetivas que não são mais que triviais, e se a fenomenologia não o pode fazer, Gorman anota que não houve uma, e sim duas propostas: ajeitar-se com a eidética de Husserl ou tentar modificar a concepção de sua fenomenologia, como Schutz.
        Quanto a este, é importante a crítica de Gorman no sentido de mostrar que sua analítica do ideal tipo resultaria na canonização como social em si, aquilo que em Heidegger foi criticado como nada mais que Das mann - a alienação do ser como todo mundo, em termos do que impede a singularidade existencial auto-formular-se na linguagem. Pois esta crítica abrangeria muito da sociologia funcionalista que anda generalizada hoje em dia.
          Ora, a viragem hermenêutica ou ontológico-existencial, parece a princípio adequada, em vez disso, rompendo com Husserl. Mas quando se estende à sociedade, desde a pura filosofia, duas concepções inconciliáveis são também ao mesmo tempo dispostas como princípios de aplicação.
          À página 172, lemos a que afirma que "a sociedade como um todo não é a soma de suas partes analiticamente distintas: não existem partes distintas da sociedade dinâmica de onde são extraídas". Mas à página 177, Gorman destacou a contrapartida conforme a qual "o todo social totalizante existe na e através das totalidades parciais, mediações múltiplas, que são dinamicamente ligadas umas às outras e ao todo por padrões constantemente variáveis."
            Não é só a teoria social dialética, expressa em "b" que se torna problemático amalgamar à teoria social fenomenológica existencial ou hermenêuetica expressando-se em "a". Pois "b" também é um princípio desta, traduzindo-se em Lukács, Marcuse e Tran Duc Thao entre outros, como "multidimensionalidade".
        Resta que é sempre focalizando o sujeito transcendendo-se na sociedade, e esta na historicidade, que qualquer descrição da totalidade poderia se viabilizar. A síntese desse parâmetro existencial sócio-subjetivo, em si dualista (ambíguo), ainda com a objetividade requerida pelo marxismo, prova-se então, conforme Gorman, tarefa grande demais, que por isso estaria "fadada ao insucesso desde o começo não importa de que ponto a comecemos."
          Gorman considera que uma opção válida seria o subjetivismo teórico que conscientemente afirmado anularia o dualismo e faria margem suficiente para a pluralidade dos demais pontos de vista. Esta solução combinaria com o que tenho afirmado em termos das "humanities operacionais" como alinhavamos - para exame posterior - desde a leitura de Bottomore. Mas Gorman situa sua opção como caminho disposto pela fenomenologia reconceituada apenas como "escolha intencional" ou "práxis subjetivamente determinada e livre acima tanto do objetivismo quanto do transcendentalismo materialista", na base de que essa fenomenologia como "busca aparentemente eterna de justiça social" revitalizaria um academicismo impotente e o tornaria apto ao "compromisso da mudança social libertadora". (p. 188).
         Todos nós que estamos interessados nesse compromisso com a justiça e a liberdade partilhamos necessariamente essa posição, mas a "intencionalidade" é o que parece-me ter sido o foco gerativo da ambiguidade que se propaga a todo uso possível da fenomenologia, pois restringe ao resultado psicologista da introspecção não só toda problemática da subjetividade.
            Só quanto a isso podemos notar que o próprio Heidegger se mantem limitado na medida em que aquilo que deve se expressar como singularidade existencial para ele seria produzido na linguagem mas esta em termos de visão de mundo não deixaria à consciência nenhuma transcendência que não a objetividade histórica - assim como na "escolha" sartriana, que só fazemos como "nossa" entre itens que já estão objetivamente "aí".
           O próprio Gorman situou o dualismo em termos de contradição tal que "o todo dialético materialista inclui o sujeito, mas o antecede" (p. 179), ou seja, como algo que poderia se estender a todo o paradigma fenomenológico e hermenêutico da intencionalidade, há o pressuposto de uma realidade subjetiva que no entanto está dada para todos os sujeitos na sua particularidade assim pré-alienada. A opção de Gorman visa evitar a radicalização da fenomenologia numa concepção tão contraditória nesse sentido que chegaria a elidir a individualidade como algo meramente empírico, para supor haver apenas um só e mesmo todo da consciência transcendental, mas todo situamento intencional é metodologicamente orientado para a generalidade (consciência) tanto mais comece por ocupar-se da "subjetividade".
          E também se trata daquilo que Bottomore posicionou em termos da "complexidade" descoberta inerente aos fenômenos sociais. Pois, nem sempre nós podemos isolar um problema social determinado, sem que se depare com uma soma crescente e ilimitada de problemas imbricados ao que parecia a princípio um único. Esta poderia ser mais uma das proposições dentre as que Gorman selecionou como os cinco argumentos dos cientistas sociais contra a crítica naturalista do subjetivismo ou do relativismo cultural.
           Se estes argumentos apoiam em princípio objeções ao naturalismo que poderiam ser também feitas pela ciência social fenomenológica/ hermenêutica, o operacionalismo em humanities inversamente a qualquer paradigma intencional apenas fornece a informação do que realmente ocorre com relação a determinado problema - como vimos pelo exemplo da criminologia, onde em vez de agentes marginalizados a pesquisa revelou que tem sido protagonizada pela firma capitalista (pesquisas feitas nos Estados Unidos). A informação não desdobra ao mesmo tempo a solução ou uma definição das causas do problema em si - o que então levaria ao nível da complexidade onde se ultrapassa a competência empírica da pesquisa.
          A ciência social renunciou assim a ser ao mesmo tempo a política de sua aplicação, uma vez que o Estado ou a lei é representativa não de si mesma, mas da sociedade. Vimos que com isso chega-se a um impasse paradoxal e de difícil enunciação, porque as ciências humanas empíricas se defrontam desse modo não tanto com os humanismos teóricos, mas principalmente com os antagonistas destes, o naturalismo ou neoempirismo cientificista que até hoje - como exemplificamos em Changeaux - almeja uma ciência social universal.
            Mas examinamos detidamente nos blogs anteriores, como as humanities empíricas chegaram a esse confronto devido ao resultado das pesquisas em sociologia e antropologia social que só revelam a heterogeneidade e não a universalidade ou generalidade unificante.
             Conforme Gorman, quanto aos cinco argumentos anti-naturalista em humanities, haveria primeiro o fato de que o observável das humanities não é reprodutível em laboratório, ocorrendo numa esfera inacessível ao controle do observador.
         O fator de determinação cultural ou histórica do comportamento social é o segundo fator. O terceiro argumento é a mudança social, de modo que uma verdade de hoje pode não valer para amanhã.
           A seguir temos que a intencionalidade da ação humana é concebida em termos de ação propositiva, orientada por valores e objetivos individuais, e conforme Gorman, "o conhecimento social válido deve revelar o que os próprios autores pensam, e não o que possa ser verificado subjetivamente através de técnicas científicas reconhecidas" que só instrumentariam a subjetividade intrínseca à montagem do próprio aparato técnico. E sobretudo, os valores dos observadores científicos controlam a valorização das provas e influenciam as suas conclusões.
     Todos esses argumentos se endereçam à conclusão de que uma ciência social universal não é possível, o que então vimos em acordo com o que as humanities empíricas estão propondo, ainda que da parte destas o que ocorre não é que se ponham em dúvida os dados da pesquisa, mas sim o seu uso, a sua interpretação.
         Tenho repetido que nada pode ser adiantado sobre o problema social imenso que estamos enfrentando no terceiro mundo em geral e no Brasil em particular devido à globalização porque nós aqui não temos pesquisa empírica para saber o que meramente ocorre em termos de processos determinados pelas novas realidades.
             Mas como venho demonstrando, pesquisas em história efetiva como de Maurice Dobb, Cl. Julien e René Dreyfuss, agora podem ser interpretadas como destoantes de toda moldura explicativa do capitalismo como processo intrínseco europeu/estadunidense, em vez de  estgruturalmente determinado pelo avassalamento da margem (colonialismo/imperialismo) e também não sendo um processo racional-legal ou de produtividade da empresa na própria Europa e Eua, mas sim processos ilegais e passionais.
            Encontramos, portanto, a cientificidade contemporânea profundamente cindida e problematizada, não um todo coerente, e se a multiplicidade teórica faz parte da ciência, não obstante o limite da unidade cultural ocidental foi duramente atingido e certamente rompido. Creio que esse é o limiar do pós-modernismo, que só pode ser decisivamente transposto pelo enfrentamento dessa realidade. A partir daqui podemos notar como a ambiguidade com relação a esse enfrentamento, na medida em que ele não pode ser de todo feito ordinariamente numa perspectiva "central", circula de modo paroxístico na interpretação ainda ambíguo do pós-moderno. 


     26/07




      5)

       Segundo a explicação da Geoegologia, que vim produzindo ao longo do nosso estudo, a ambiguidade é intrínseca ao pensamento ocidental desde a época clássica, determinada pela clivagem da unidade do referencial metafísico a partir da descoberta do Novo Mundo, como irredutibilidade  do selvagem à totalidade do humano por aquele referencial constituído.
          Ao mesmo tempo natureza, humanidade, mas não sociedade, civilização, o selvagem implicou o que estudamos detidamente como pensamento dual, expresso nas teorias do contrato social que lançaram as bases do pensamento político liberal. Assim, agora estou repetindo o que ficou assentado como nossa concepção de que bem inversamente à sociedade liberal ser o resultado do progresso da tradição ocidental filosófica, ela é construída a partir da reflexão europeia da liberdade do selvagem na margem, e seu estado constitutivo, obviamente não caracterizado de modo "autêntico", mas sem que isso implique ter sido menos "revolucionário" nas mãos de pensadores como Locke e Rousseau, críticos da dominação monárquico/ eclesiástica / oligárquica.
         Também essa concepção não acompanha o que tem vindo de Heidegger a Derrida e outros, no sentido de afirmar uma única tradição "metafísica" que então se desdobra em ciência experimental sem transformar-se profundamente. A vocação ao devir da ciência nova desde Galileu está relacionada ao conjunto de transformações reais que abrangem a descoberta empírica e impossível de outro modo, da "natureza" americana. Essa natureza não pode mais ser abstraída mesmo para uma démarche metafísica, como antes o podia ser o devir em termos de Khora ou potência/passividade pura.
         Por outro lado, a "modernidade" que em algumas das ciências humanas e em Foucault, ao contrário da terminologia de História Geral significa o período contemporâneo iniciado desde o século XIX, estabelece uma sociedade liberal que não é estruturada como "contrato social", mas como Estado de direitos (nacionalidade) em geral afim ao conceito de Hegel, assinalando-se por esse meio a interconexão do pensamento "ocidental" ao equacionamento da realidade da margem, uma vez que nesta já não se trata da condição colonial (natureza), mas da ação concertada da  emancipação política (cultura).
       À geoegologia é crucial o fato de que na emergência do Estado de direitos civis uma condição foi fundamental: a emergência, conjuntamente, das ciências humanas e da filosofia pós-kantiana, ambas implicando o mesmo, a saber, a emancipação como objeto da auto-compreensão, do próprio Sujeito do saber.
          O ocidente, desde a emancipação política nas Américas, não pode mais apenas dualizar-se como telos de uma evolução desde a natureza (outro), mas apenas como cultura entre as demais, sendo que a função teleológica não deixou de existir só por isso, mas inversamente ela foi deslocada à ciência em si mesma. É a teleologia do humano a partir no entanto de um outro (primitivo) que não é senão humano, que instaura a ambiguidade insanável da tradição ocidental, a qual porém não abrange necessariamente a pesquisa empírica da alteridade e sim expressa-se como o sintoma da necessidade sentida como tal, da "grande teoria", o relato narrativizante (descientificizante) da História em termos teleológicos.
        Assim, é importante notar que a "modernidade" é o momento em que pioneiramente emerge o Sujeito pensável. Sendo também aquele em que emerge a história como ciência, a evolução em biologia, e em política o ultrapassamento do hiato entre "estados" de humanidade. Todos esses itens tornam possível conceituar a inteligibilidade do devir, mas assim a sobredeterminação dual incide a partir da necessidade que agora  os grandes relatos em humanities devem atender, de narrativizar a história a partir de postular um seu Sujeito - a agência ocidental da teleologia (progresso/ ciência/ Estado de direitos).
           Tratei os momentos constitutivos da modernidade em termos de objetualidades mutáveis conforme políticas capitalístico-imperialistas, em estágios tais que  após a oralidade romântica, desde o positivismo há uma "analidade" da dominação explícita pela interpretação racista da biologia, e o pós-positivismo onde essa interpretação se exauriu e emergiu a pesquisa de campo com o neocolonialismo, corresponde ao momento da ambiguidade explicitada como formação fálica do neocolonialismo onde porém conservou-se a identidade da estrutura como poder ocidental/epistêmico/hermenêutico de sua enunciação.
         O rise estruturalista esboçou a maturação "genital", mas de fato expressa o limite de todo investimento geoegológico, posto que não rompe com a imaginação do poder do enunciado do sujeito epistêmico sobre o que então não pode evitar unificar como seu outro.
        E desde que isso vem se tornando incontornável pelo excentramento da própria enunciação não-ocidental, consequentemente plural ("multiculturalismo"), o que ocorre em termos de pós-modernismo é por um lado um Recentramento - o que Freud não previu como o discurso do pai, a neoanalidade do adulto, com o Ocidente se valendo de todos os pseudo-recursos para reassegurar sua unidade fictícia ou poder de unificar a alteridade por oposição a si; e por outro lado o Excentramento em termos de ruptura para com a estruturação "geoegológica"  (ocidentalizante)  da linguagem.
        Nessa ruptura, como nas humanities empíricas que reconstituem a alteridade da linguagem de que se trata até o ponto em que isso é possível para evitar a falsa interpretação - como estudamos na antropologia social, especialmente -  em todo caso, existe sem dúvida a problematização plural da enunciação: o Sujeito, uma vez não sendo redutível ao uno de uma ciência sobredeterminada pelos grandes relatos, não deixa de colocar a heterogeneidade de sua enunciação que só o estudo dos seus textos pode vir a apreender na pluralidade dos gêneros e culturas. Ventilei também a transformação na linguística recente em termos de Textolinguística e sociolinguística como franqueamento do limite do uno no inconsciente.
          O essencial à perspectiva da nossa teoria crítica da cultura Ocidental como Geoegologia, é apreender o fato de que antes da filosofia pós-kantiana e de Biran, nunca houve o sujeito pensável. Até aqui a inteligibilidade do Real no seio do devir nunca havia se transmutado na questão intrínseca à experiência inteligível como a de um Eu.  O que em filosofia se traduz "como minha experiência".
       A mônada leibniziana da filosofia classicista admite uma original "noção individual" - premida como vimos pela alteridade visível da natureza em relação ao ideal racional - e conforme essa noção se eleva a nível de essência a subjetividade, mas somente como identidade factual: como seria a essência de Sexto Tarquínio ser mau, e a de César ter atravessado o Rubicão. Segundo Leibniz, estas seriam verdades eternas ainda que não geométricas, mas tais elas animam uma Teodicéia, e basta ao pensamento clássico que o inteligível se demonstre que seja, para que o intelecto tenha que apreendê-lo necessariamente em geral.
         Não há na mônada leibniziana nem em qualquer face do pensamento clássico, a transformação do problema do ser e do pensar, tal que toda a apreensão possível do Real e/ou do Inteligível passa ao interior da questão mais geral de como um Eu apreende seja o que for sem cindir-se de sua auto-apreensão e sem confundir-se a si com o que apreende.
          Essa transformação desde o pós-kantismo e a psicologia de Biran, se torna nova gênese de todo pensável (estética/ patologia/ imaginação) e em particular do racional, inteligível (ciência/ normal/ certeza).
           Ou seja, como termo de um progresso histórico/espiritual cujo protagonista não é o sujeito epistêmico em geral sem ser o Sujeito histórico dessa realização do progresso, o Ocidente, que começa assim desde a oralidade romântica a enunciar-se pelo apagamento do objeto que premiu o pensamento como outro-sujeito que inscreveu o enunciado na subjetividade.
          O primitivo como sujeito não auto-compreendido, que não integra a história desse progresso, é o que a ciência como racionalidade do sujeito para si da ciência, auto-compreendido em sua possibilidade epistêmica, deve no entanto intrinsecamente explicar - do contrário, a ciência não seria a inteligibilidade universal, isto é, aquela cujo sujeito está explicado como vem a ser possível epistêmico. Sempre mais as humanities são a parole dessa alteridade, mas sempre mais os grandes relatos se sobrepõem para erigirem-se como o "verdadeiro" conhecimento ou conceito.
        A ambiguidade, produto de uma abstração estruturante, não é entre Sujeito/objeto sem ser mais profundamente entre Sujeito e sujeito, Ocidente (Centro e telos ou Ego da História do progresso) e não-ocidental que deve apenas refazer a história pelo recalque da heterogeneidade local, sua alteridade sendo desdobrada numa alter-egologia desde que não pode não ser cooptado à "História" pelo capitalismo/imperialismo, etc.
          A "margem" se institui na matriz dupla da exclusão da História teleológica do progresso e iimpossibilidade de ter qualquer História autônoma. O capitalismo, pela Geoegologia, é assim reconceituado em termos de assimetria internacional do capital, como dominação cultural que estrutura a duplicidade entre Centro e Margem - ou seja, como processo de marginalização (anexação da margem); e não apenas dominasção econômica, tampouco isso sendo algo somente determinado pelas condições mais tardias do capitalismo (neocapitalismo norte-americano; economia de multinacionais).
          Estudamos minuciosamente , com autores de história econômica, a imbricação do imperialismo intrínseca ao capitalismo desde os primórdios, desfazendo as concepções do capitalismo como processo autônomo europeu.

         II)

            Foucault tangenciou a percepção do que para mim é a evidência "geoegológica", mas de um ângulo  centrado tal que ao invés do a priori geopolítico do que seria uma arqueologia do saber, ele só visou o universal científico em sua dobra subjetiva.
            Assim a ambiguidade conforme ele, seria a implicação moderna do Homem (humanidade) no Universal. Por aí a ciência dispõe a lacuna que só o que para Foucault é a pseudociência desse (universal) humano- de fato ambíguo, como vimos acima - deveria (fantasiosamente) preencher. Mas Foucault não fez uma história das humanities que emergem na contemporaneidade, objetivo que só seria servido por uma história das pesquisas e rupturas em cada matéria. Ao invés, fez uma leitura dos grandes relatos buscando o fio comum que os estrutura, e assim tampouco atendendo ao fator mutável  ao longo desses dois séculos, que acima expliquei.
          A obra de Foucault, em todo caso, se dispõe obtendo seu pivô demonstrativo na questão da exclusão do doente mental pela razão classicista, que se torna, com a "modernidade", sua ambígua "inclusão" apenas como objeto de diagnóstico científico. Ou seja, vemos assim o louco figurar como o que situei em termos do dualismo básico dessa exclusão diagnóstica, a alteridade da margem que epistemologicamente me parece fundante de quaisquer outras porque o que ela põe é o situamento do Sujeito ao pensar.
           Aqui  Foucault se inscreve num amplo movimento de desestigmação da esquizofrenia em particular, como na Anti-psiquiatria (Laing/Cooper), até a elevação do "esquizo" em modelo do inconsciente com Deleuze-Guattari, mas sem conservar para a esquizofrenia a definição de signo isolado lacan-jamesoniana. Para Deleuze-Guattari o inconsciente é criativo de linguagens, e é nesse sentido que é esquizo - por não haver nele uma unidade ("sujeito") destinada essencialmente. Estudamos com alguma minúcia a esses autores nos Blogs mencionados.
          Aqui devemos notar que na verdade o modo como Jameson recoloca a definição de Lacan, num confronto direto com o "pós-moderno", surge como considerável, mas paradoxal, recuo conservantista em relação àquele movimento.
              Pois a anti-psiquiatria mesmo já havia feito espaço para uma crítica da sociedade na era capitalista em termos de intrinsecamente contraditória, gerando assim uma esquizofrenia normal em todos nós como sujeitos dessas contradições, dentro de uma frequência tal que a patologia só seria diagnosticável além dela.
          Mas assim a ambiguidade conceitual retorna. Por um lado, a esquizofrenia como patologia para a anti-psiquiatria é a exacerbação de um conflito entre valores contraditórios no entanto sobrepostos numa única mensagem ("dupla-ligação"/ Bateson). Por outro lado, restando na concepção "humanista" da psicologioa, a antipsiquiatria de Laing e Cooper mantem um conceito de "verdadeiro" (universal) Self (oponível ao "sistema do falso-self").
         A crítica foucaultiana, inversamente, apenas aprofunda o anti-humanismo (ou anti-universalismo) que estudamos minuciosamente em Althusser. Aqui é qualquer conceito do universal ("Homem") que conduz à discriminação do que no entanto, também é humano e só pode ser discriminado por sê-lo, como "louco".
          Jameson, vindo também expressamente de
 Althusser, como vimos não declarou qualquer intenção de desestigmatizar a esquizofrenia, mas enraizou-a profundamente na sociedade "normal" dos nossos dias - o que sugere um notável paradoxo.
         A ambiguidade gormaniana entre Sujeito e partido se radicaliza quando se trata do marxismo jamesoniano interessado em reconfigurar-se como teoria apta a lidar com o novo papel do terceiro mundo na era do capitalismo multinacional - que hoje já está cartografado como planisfério oficial, em termos de "conflito norte-sul". Pois Jameson classifica na infantilidade oral o estágio psico-social do terceiro mundo, mas se isso pode ser estrategicamente explorado em vantagem para um outro percurso teleológico, aquele cujo Sujeito é o proletariado, então há um direcionamento necessário de todos os nossos processos culturais, políticos e psíquicos, que não pode vir de nós mesmos mas já está predisposto como "teoria" (marxismo) - pelo partido, ou pelos intelectuais ocidentais?
            Vemos que na transformação histórica expressa no novo planisfério pós-soviético, em todo caso o terceiro mundo não mais está subsumido a mero derivado na compactação da essência da economia internacional (capitalismo). Tenho destacado o fato desse mapa ser uma figura não-decidível, entre uma economia internacional ou dois mundos, Norte/Centro e Sul/ periferia, cindidos pela linha de pobreza. O modelo geográfico usado é o centro-periferia, mas o que está sendo cartografado é a dependência da economia inter-hemisférica. Está agora nítido, não obstante a ambiguidade constitutiva da figura,   que o terceiro mundo é o objeto mesmo da sua dominação.
           Jameson pensa que essa ostensividade é apenas pertencente à mutação do capitalismo em multinacional, enquanto o que se tem como eu mesma tencionado é mostrar que as teorias que puderam tratar a anexação/dominação da margem como derivado em relação ao processo real/essencial do capitalismo europeu, são explicáveis como decorrência sintomática da própria dominação, uma vez que o estudo da história efetiva só demonstra o contrário.
           Por outro lado, o pós-estruturalismo que rompeu com o marxismo para obter uma teoria do Poder não mais subsumido pela questão econômica ou dicotomia de classes, não trata a "modernidade" senão como palco de um mesmo processo duplo: entre emancipação científico-estética por um lado, e sobre-determinação do Poder de identificar, por outro lado. Respectivamente, a emancipação da linguagem por sua multiplicidade de códigos, e a linha contínua do sintoma, ainda discursivo, da vontade de domínio/identidade. Por mais aproximado que tenha sido ao verdadeiro conflito cultural, a continuidade fantasiada do Ocidente não se desconstruiu assim.
          Como vimos anteriormente, a leitura fascista da teoria do Estado hegeliana se implementa, quase um século após sua produção, instrumentada por uma antropologia e uma psicologia novas, e já tampouco positivistas. Neste novo contexto, o importante foi a posição do primitivo como pré-egológico (Wallon, Freud e outros). O ego sendo formado após a trajetória arcaica da infância, ainda em Piaget, onde o operatório formal só se constitui como maturidade bem depois, na entrada da adolescência, o primitivo é infantil posto que suas performances situam-se no operatório "concreto".
           O estruturalismo, com uma teoria do inconsciente tal que o primitivo é variação tanto quanto o civilizado, de Levi Strauss em diante, parece romper com o que isso implica: a visão do primitivo como só capaz de gestos coletivos.
          Mas na verdade, não rompe totalmente, pois a ruptura real seria o desfazimento da unidade do primitivo, e real investimento na pesquisa empírica como aquelas que nos mostraram a sua heterogeneidade, na medida em que povos diferentes não tem a mesma antropologia,  até chegar à concepção de cada sociedade em si mesma heterogênea (plural e em devir), contra por exemplo a concepção de Grécia defendida por Foucault em "O uso dos prazeres" e por Deleuze-Guattari em "O que é a filosofia", ou ainda contra o logocentrismo derridiano como uma mentalidade única de dominação desde Platão até a linguística saussuriana e psicanálise freudiana abrangendo ainda Lacan e Levi Strauss.
         A origem "funcional" da concepção do primitivo como só capaz de gestos coletivos o posiciona contraditoriamente. Por um lado, incoativo à sociedade civil democrática, que depende do direito privado e consequentemente do Split de público-privado, sendo egológica. Por outro lado, nessa época, às vésperas das duas guerras, não se estava defendendo na Europa em geral a democracia, mas o tradicionalismo e em se tratando do marxismo, Sorel e Gramsci entre outros pontuavam essa mesma interpretação, plenamente cientes de que estavam operando um neomarxismo, em ruptura para com a antropologia positivista que creditavam a Marx e Engels.
          A teoria do Estado civil nasce à época do Romantismo, inversamente à leitura fascista posterior, relacionada à emergência na Europa do Split público-privado, e portanto como uma teoria do Estado democrático, de garantia dos direitos do sujeito privado junto com a teoria da intersubjetividade e da psicologia/filosofia do Eu (originário). 
            Na atualidade, não se trata mais de opor a essa junção  as duas objeções que vieram se sobrepondo: o objetivismo positivista e a psicologia do Eu não originário, mas resultado do período de formação psíquica. Podemos defender a democracia numa base não meramente "idealista" - aqui fiz menção à textolinguística, mas o pós-modernismo é o horizonte conveniente à heterogeneidade e por isso politicamente é o ambiente que recoloca toda a questão da convivência democrática enquanto Estado de garantia dos direitos civis.
        A crítica pós-estrutural do Estado na verdade apenas o reduziu ao seu contrário como dominação oligárquica (despotismo), em vez de nível público da coexistência do heterogêneo que as sociedades igualitárias quanto a status, tanto quanto a democracia grega, demonstram inerente à concepção do social. Por outro lado, isso implicou sempre uma leitura da margem que não só desfigura sua realidade heterogênea, mas é imposta pela intelectualidade comprometida com a miragem do progresso local.
        Por exemplo, a concepção de Jameson de que nós não temos o Split público-privado civilizado, é afirmada na base de que nós ainda não o atingimos, sob o plano de fundo da antropologia que constatamos superada - porque hoje sabemos que o não-ocidental tem variada concepção de si, não é homogeneamente"coletivo", tem concepção da humanidade em vez de só referenciá-la da própria tribo, etc.
         Inversamente, só a pesquisa empírica e a análise dos textos e registros heterogêneos pode detectar as variações quanto a isso, mas de um modo geral podemos notar que a ditadura militar implicou menor margem do que já havíamos conquistado em termos de autonomia do privado, e a "globalização" tem sido muito pior nesse sentido, como neofascismo, mega-favelamento, disseminação de seitas de extrema-direita  protestantes de massa, aumento em grande escala da desigualdade, etc.
          O século XIX também mostra que a metade inicial romântico-socialista tinha muito mais concepção da heterogeneidade local e privacidade do que o positivismo, que reduziu todo o processo do desenvolvimento local à mentalidade tecnicista ostensivamente racista.
          Leandro Konder registrou  no seu estudo ("a derrota da dialética") o fato de que o marxismo oficialmente entra no país com os imigrantes cooptados com objetivo governamental de "branquear" a população para torna-la apta à industrialização - pensava-se que negros e índios eram irracionais. E assim documentou que os marxistas imigrantes eram estritamente preconceituosos em relação ao mestiço local -  usavam, como os mais conservadores direitistas, a expressão "mestiçagem moral" para designar seus hábitos sexualmente permissivos, sua frequência de bailes, etc., como índices de inépcia para integrar qualquer movimento politicamente consequente. É claro que, como vimos, o marxismo tem se diversificado enormemente, mas o que precisamos notar é que o Recentramento não ocorre de modo fortuito, e esta é a realidade que precisamos confrontar na globalização.
        Minha reconceituação do capitalismo em termos de assimetria internacional do capital implica a consequência de que não há dominação capitalista no Centro - como a que os marxistas e outros críticos sociais pretendem eliminar - que não seja condicionada pela exploração da margem pelo capital central.
            Posto que "capitalismo" contemporâneo não é sinônimo de livre empresa comercial ou industrial, mas sim de monopólios e multinacionais cuja escala de ganhos só se viabiliza pela exploração total de economias nacionais assim disponibilizadas - isso obviamente não é novidade, e qualquer manual de geografia do segundo grau instrui sobre as condições do que se designa "industrialização complementar" ou globalização, tanto quanto qualquer manual de história mostra a intervenção violenta do capital central localmente até aqui, com o objetivo de impedir a industrialização independente nacional.
         O pós-modernismo como horizonte de crítica social produzida pelo heterogêneo, se imbrica a todas as mudanças epistemológicas e políticas que implicam romper com as teorias que cegam para a consequência do estudo da história efetiva, onde a unidade teleológico-narrativa do progresso como de uma razão atuante no capitalismo - ainda que fosse dialética - se desfaz.
         Hutcheon situa nessa mesma linha o que seria a operação pós-moderna da reescritura das inscrições discriminatórias - de sexo, etnia, classe - e desestruturação posterior de sua dissimulação como lógico e necessário ao invés de meramente interessado e dominador. A desconstrução sendo feita pela autonomia demonstrada de outros códigos enquanto imanência da obra mesma - assim a meu ver para ela a paródia refaz o aparentemente mesmo, mas em outra linguagem.
        Mas assim ao invés da ausência de método além da heterogeneidade dos códigos e de uma analítica do discurso que a discerniria, Hutcheon visou uma constante do "excêntrico", um método da contradição e um conjunto de deslocamentos da função estética da referência.
         A partir daqui estaremos conceituando esses três elementos, após o que tenciono desenvolver o terceiro item do roteiro que ficou estabelecido no blog geoegologia3 como suficiente à cobertura do que designei consenso do corporate state entre o pós-guerras e a globalização.
          Nesse período o subjacente foi a onipresença das concepções de ideologia, que se supôs servir ao problema da pluralização dos antagonismos sociais que na verdade implica a superação dos grandes relatos nas humanities orientadas ao operacional pelo ultrapassamento do limite centrado a partir do horizonte das descobertas multiculturais.
          Ou seja, neste período o amálgama impossível de ideologia e discurso foi operado sempre que se pensou poder conservar-se, ainda que com alcances interpretativos tão inconciliáveis como os dispostos nos itens estudados I (setores da psicanálise, marxismos) e II (Hutcheon e a crítica pós-estrutural). O item III cobre a conservação da ideologia contra o discurso quando se percebeu sua irredutibilidade (Zizeck; Eagleton e outros). Na atualidade, a reconfiguração planisférica norte/sul compromete em muito o Recentramento que verificaremos expresso nos referenciais do item III, mas que expressa a realidade da dominação deslegitimada - porque o desenvolvimentismo como cópia na margem não pode mais ser sustentado a partir da problemática ecológica e da Reserva do Saber.
        Conservo uma oposição entre pós-moderno como período histórico e pós-modernismo em termos de encaminhamentos estéticos, políticos e teóricos ligados ao Ex-centramento.
          O que considero positivo na concepção de Hutcheon é que parece ter havido ao invés da dicotomia humanismo/universal e anti-humanismo/singular, a intenção de reconceituar o humano na pluralidade, em vez de pelo apriori etocêntrico e/ou machista: particular que se auto-dissimula geral, mas apenas pelo lidar com o diferente em termos de estranho, infantil ou anormal. Mas Hutcheon teria assim balizado o início de um processo que vemos mais aprofundado em Messer, Jane Flex e Henry Lois Gates em sua leitura de Ishmael Reed. Estes expoentes aprofundam o ex-centramento numa acepção que não conserva qualquer ambiguidade resultante da confusão de "identitário" com o verdadeiramente singular.
        Começando por Hutcheon, poderemos esclarecer sucintamente os lineamentos que embasam o pós-modernismo que nestes expoentes tem se mostrado menos ambíguo.

        30 / 07


         Ao se propor examinar as "oito principais ideias de Eagleton" sobre o pós-moderno, Hutcheon chega a referenciá-las como parte de uma abordagem dicotômica dogmática, "que transforma o pós-modernismo na negação e no oposto do modernismo". Já salientei que a meu ver ela não acompanha Subirats como alguém particularmente interessado em sublinhar a continuidade entre uma coisa e outra, e o mantenho ainda que ela tenha comentado algo do pós-moderno em termos de "frutos paradoxais do modernismo". Isso não chega a um princípio de continuidade, e inversamente seu texto vai constituindo um conjunto de transformações assinaláveis para abranger uma irredutibilidade formal cujo meio termo é a história: de que o modernismo teria sido fuga, e que o pós-modernismo, ao contrário, investe na própria textualidade.
          Essa é uma perspectiva frontalmente inversa à de Jameson. Para este, a cena da eterna cidadezinha do interior dos anos trinta, generalizada nos remakes cinematográficos que se tornaram comuns no cinema recente, assim como o próprio onipresente procedimento de remake, sinalizaria para a conclusão de que o tempo orgânico imanente ao romance histórico, seja como  ideologia burguesa de sua ação progressista (Lukacs), seja como dimensão retrospectiva psiquicamente  indispensável à orientação ao futuro (E. P. Thompson), foi reconfigurado em apenas "intertextualidade". Não existe mais como algo que realmente foi, mas se tornou estereotipado como estilo que então é o que se torna o elemento que  informa toda temporalidade possível (do filme-remake).
         Assim, conforme Jameson, o pós-moderno introduz "uma nova conotação do passadismo (pastness) e profundidade pseudo-histórica, na qual a história dos estilos estéticos deslocou a história 'real' ".
       A imbricação de história real e ficcionalidade, como algo que envolve mas transcende a tópica estilística, é o que Hutcheon conceitua como fórmula da arte pós-moderna, que por analogia seria aplicável desde o literário às demais modalidades, se bem que muito ancorada toda essa discussão no que se designou o "historicismo" em arquitetura, como introdução de citações, recursos já utilizados antes, em projetos que no entanto não são estilisticamente orientados da mesma forma do que aqueles que no passado lançaram tais recursos.
        O conceito hutcheano de "metaficção historiográfica" se torna axial em "A poética do pós-modernismo", e como vemos isso envolve uma ruptura muito pronunciada com todos os compromissos teóricos que recusaram separar a defesa do modernismo e a acusação do pós-modernismo como destituído de dimensão política, ou até estética, e meramente reificação do potencial mercadológico da produção.
         Para esclarecimento desse conceito, contudo, parece-me importante notar que a intenção subjacente, como se pode detectar pelo trecho referencial às ideias de Eagleton, pode não ser como parece à primeira vista, de fato desafiar as deduções que foram feitas como itens associáveis ao pós-moderno por seus críticos, mas inversamente mostrar que aquilo em nome de que se fizeram tais deduções, sendo o modernismo como seu contrário, não é na verdade assim oponível. Não porque o pós seria o mesmo que o modernismo, mas porque o modernismo de fato não serviu àqueles objetivos.
        O que pode já ser notado pelo exposto, com base no fato óbvio de que entre Hutcheon e Jameson demonstrou-se uma comum valorização da história, e uma comum tematização da arte autêntica em termos daquela que com ela se relaciona de algum modo, ao contrário de qualquer estética que alguns designam "formalista" por investir apenas experiências do signo alternativas à linguagem comum. Escusado lembrar que por esse formalismo muita gente entende nada menos que a vanguarda e o modernismo em si, o que torna a posição de Hutcheon quanto a isso aparentemente menos singular que a de Jameson.
            Na verdade essa aparência não se mantem, um tanto surpreendentemente, justamente quando transitamos ao exame da crítica de arte americano-latina recente, cuja oportunidade vem de que compõe como seu horizonte temático muitos expoentes que a própria Hutcheon associa ao pós-modernismo, como escritores latino-americanos que se tornaram importantes num fenômeno de mercado a ser interpretado por si mesmo, como  Garcia Marques, Vargas Losa, e outros. Esses expoentes estavam sendo tratados pela crítica antes da eclosão da polêmica sobre o pós-moderno, mas vemos que várias propostas teóricas se veem repetidas nessa polêmica, de modo que a decisão mesma sobre o experimentalismo como algo que compacta ou não o modernismo e/ou vanguarda não é consensual.
          Além disso, podemos lembrar que alguns tratam o modernismo brasileiro em duas frentes: os pioneiros fizeram uma ruptura temática, mas não formal; os concretistas é que teriam introduzido a ruptura formal como quebra da sintaxe. Mas desde que surgiu a polêmica sobre pós-modernismo, não houve uma decisão sobre se o concretismo pertence a um último momento modernista ou pelo contrário, inaugura o pós-modernismo.
      Um percurso conceitual hutcheano me parece  reconstituível. A princípio devemos notar que o excêntrico (mulheres, negros, mendigos, etc.),  enquanto constante da metaficção historiográfica como aquele que toma a palavra da narrativa, é para ela aquele que apreende o que poderíamos designar a totalidade histórica - contrariamente ao sujeito da dominação que só pode ver a sua própria perspectiva particular que ele no entanto não consegue apreender como tal.
         Aqui estou utilizando a  expressão "totalidade histórica" correspondendo precisamente à acepção de Eagleton  em seu texto sobre "A ideologia e suas vicissitudes no marxismo ocidental". De uma perspectiva em interlocução com Lukács, Eagleton sublinhou que são os explorados e estigmatizados num dado antagonismo social que estão na posição de apreender a totalidade da situação, digamos, as duas partes que a constituem como dominado e dominador. Para Eagleton, sem a apreensão da totalidade ou universalidade, não haveria consciência crítica por parte do explorado. Ele se submeteria à paralogia do dominador.
          Hutcheon parece não ter querido dizer outra coisa sobre o excêntrico que toma a palavra na pós-modernidade estética, mas para ela esta conquista da palavra só é exequível no interior do seu confronto com o ego burguês. Esse confronto é específico a uma situação e não algo em geral, mas além disso, para assim (re)-constituir-se, o confronto precisaria recriar o ego burguês no momento mesmo em que se diferencia dele.
            Portanto, a constante do excêntrico se desdobra num método contraditório que deve apreender uma literatura na qual o referencial constitutivo da palavra está ao mesmo tempo dentro e fora, constrói para em seguida desconstruir, fala inserido num antagonismo presente que no entanto não é precisamente o correlato de uma necessidade factual mas foi construído numa história da dominação. 
        Aqui o importante para a obtenção da fórmula do metaficcional pós-moderno se torna a transformação da concepção do histórico, na medida em que se na concepção tradicional ele é o oposto da ficção, e o que esta, se tematiza, não obstante não o faz como História em si, agora o que se está discernindo é o seu nexo com a dominação em termos de "ideologia". Isto é, em termos da paralogia que o ego burguês ou da dominação criou como suposta necessidade da situação que implementa o seu domínio.
       A relação entre ficção e não-ficção ou história passa agora por uma crítica do "dado" não ficcional, como ele também produzido por procedimentos de textualização - portanto, procedimentos comuns à ficção que é o locus mesmo da "textualidade".
         É o produzido assim que se torna reconstituível como "ideologia", mas por outro lado a reconstituição está sendo feita no interior de um esclarecimento, aquele da situação total do antagonismo que por não transcender a sua especificidade estaria na concepção de Hutcheon igualmente imanente à esfera do ideológico, não obstante numa assumida posicionalidade crítica.
               A ideologia se torna um conceito polimorfo no texto hutcheano, não apenas porque tanto inere a um quanto a outro dos lados de um conflito, diferencialmente, quanto porque não houve uma opção definida entre os vários referenciais teóricos de sua conceituação além de apenas recusar-se que se trate somente de ideias distorcidas. No limite, enquanto o inevitável de um posicionamento histórico, situado, a ideologia pode ter o papel positivo de evitar a dedução de que a posição do dominado é por si só veículo de apreensão de uma inteligibilidade universal, de uma ciência não-ideológica de todo.
         Aqui, sim, poderíamos demarcar o fator gerativo das avaliações sobre o pós-moderno, na medida em que a defesa da ciência para o marxismo é essencial, mas na atualidade esse não é de modo algum uma questão que se possa debater ao modo de épocas anteriores a rupturas muito profundas nas próprias ciências.
        Como já salientei, a tentativa de manter o diálogo crítico numa base de ignorância dessas rupturas apenas resultou numa série de recuos um tanto espantosos, ainda que instrumentalizando a própria recepção das rupturas em seu desdobramento de tematização estética.
          Mas a recusa de desatrelar a "ideologia" do que se endereça como intenção que corresponderia bem apenas a uma analítica do discurso, como em Hutcheon tanto quanto nos autores que examinamos antes a propósito do tema da ideologia em si mesma, se mantem em afinidade a esse limite.
          De fato podemos indagar se é a história como ciência, em vez dos mass mídia como novo locus de formação da opinião pública, que devemos tematizar criticamente enquanto fatores formativos de um consenso absurdo e fascista, quando se trata dos acontecimentos históricos recentes como os referenciais aos pós-modernos Robert Coover ("The public burning") e Doctorow ("Ragtime", "Loon Lake"), ao modo do processo dos Rosenberg nos Eua em inícios do século XX. Mas também indagar se a história como ciência corresponde, ou não, ao reducionismo sistêmico universalista sócio-evolucionista a que a submete aqueles que se não for assim, não a veem como nada mais que "ideologia".
       Segundo uma argumentação recente em sociologia, também podemos exemplificar o limite do paradigma crítico ideológico. Nesta argumentação mostrou-se que o regime de castas na Índia, que vigorou até 1949, foi cada vez menos podendo ser conceituado como por algum parâmetro  comum à realidade ocidental - seja como as suas diferenciações de status, seja como reflexo da luta de classes.
          Aplicando essa problemática ao nosso questionamento: alçada ao locus disciplinar da "extratificação social", que sentido poderia haver em diferenciar a extratificação social de casta, de uma ideologia de casta? A ideologia é a coisa mesma, a extratificação se estrutura por obrigações e significados que cada um apreende como sua pertença à casta - e não pela posse ou carência de bens.
          Mas se há uma compactação discursiva em geral acima das castas em si, tal que ela permitiria apreender um sistema indiferente ao que a diferença das castas implica em termos da própria avaliação da justiça ou injustiça do recorte de casta conforme cada uma delas, eis o problema, em vez da solução. Uma analítica do discurso em sentido foucaultiano objetivaria essa compactação, enquanto em outros sentidos poderia não compactar e apenas esperar obter compreensão das diferenças de sentido para uma heterogeneidade social tematizada. Em todo caso, parece-me que  na acepção hutcheana, ao invés disso, a "ideologia" corresponderia ao mesmo tempo às diferentes formas de ver, e a qualquer posição em que se pudesse estar situado como alguém que está vendo.
      Na intenção de manter a fórmula da metaficção historiográfica, apreendemos os deslocamentos da referencialidade que o texto pós-modernista introduziria, conforme Hutcheon. Aqui o que chama a atenção porém é que nem todos os cinco itens que ela selecionou podem realmente ser designados pós-modernos, em termos do que já não fora antes praticado para focalizar seja a literatura em geral, seja o então atual modernismo.
          Isso não chega a ser totalmente delimitado, uma vez que Brecht atua mesmo para Hutcheon como um elo do pós-modernismo ao seu predecessor, algo que Against the grain, de Eagleton, tangencia ao notar que Brecht é um expoente incomum na vanguarda por ter se esquivado ao que vimos ter sido conceituado como fetichismo do objeto autotélico - que é o que Hutcheon está do mesmo modo atribuindo ao modernismo. 
         (postagem de 31/07) Assim, tanto Eagleton quanto Hutcheon praticam uma mesma oposição entre por um lado a arte experimentalista do  objeto autotélico (signo sem sintaxe, sem significado/finalidade ulterior ao próprio contexto); e por outro lado o que Hutcheon designou o "uma versão do modelo brechtiano" que teria realmente sido utilizada pelo pós-modernismo (p.265).
         Mas se ambos, de modo aparentemente inverso a Jameson, referenciam o modernismo de um modo mais habitual a nós outros, em termos de experimentalismo, para Eagleton parece-me restar uma fuga de sua ambígua valorização do modernismo frente ao pós, que não apenas o fato do fetiche autotélico poder ser definido como não imediatamente o que seria o pós-moderno rebaixamento da arte ao valor comercial da mercadoria. Seria o caso do Realismo Socialista, que põe a meu ver um dos maiores problemas para uma definição unívoca do modernismo, uma vez que por si mesmo tendo armado toda a censura marxista ao experimentalismo, não obstante é como este uma crítica do Realismo como arte burguesa da ingênua "representação" ignorante das causas como da luta de classes.
         De fato, as defesas do modernismo frente ao pós, como o que poderíamos creditar a Eagleton e a Jameson, são ambíguas, pois ambos estão defendendo uma arte que respondesse ao que para eles é o verdadeiro impulso da consciência, a referência da realidade. Mais um problema para o equacionamento do que foi o Realismo Socialista na época das vanguardas, pois sua diferenciação do Realismo, se é assim, esfuma-se.
        O registro de um congresso de que participou Sartre no Leste Europeu, em que intelectuais comunistas se colocavam a questão de como implementar a política cultural no cenário pós-stalinista, e o próprio convite a Sartre já sinalizava para a nova atitude, fez-me pensar que eles estavam dispostos a aceitar literaturas que antes não podiam ser veiculadas por estarem etiquetadas como burguesas, mas estas eram preferencialmente realistas,  e não de vanguarda. A questão crucial se tornou como definir o que era e o que não era apenas "vanguarda".
          A posição de Sartre foi que não havia de fato uma cisão muito grande entre Realismo Socialista e vanguarda, posto que esta havia sido no Ocidente o horizonte do equacionamento estético dos problemas políticos reais, e o que não pudesse ser assim definido apenas não tinha importância histórica. Este é um tema que está longe de ser sem relação com o que estamos examinando. Especialmente na crítica americano-latina, poderemos notar como ele é o que se tornou o pivô da problemática conceitual da nova literatura elevada a fenômeno de mercado, e quanto ao situamento da discussão do pós-modernismo, enquanto ele pode ser considerado um referencial ambíguo isso se deve precisamente ao lugar decisivo que nessa discussão foi mantido em torno do marxismo.
          Como já se pode ter compreendido pela manutenção de um modelo brechtiano, Hutcheon não tenciona formular um pós-modernismo sem vínculo com o marxismo. Sobre isso ela é bastante clara, esgrimindo contra as versões do pós-modernismo como algo conservador devido à sua recusa de manter-se na linha da luta de classes. Para Hutcheon o que o pós-moderno faz é apenas transportar para a própria obra de arte aquilo que antes se supunha que só a crítica ou a teoria podiam fazer, enquanto "desafios ideológicos" que são "tão declarados (e ressaltados) quanto as aporias textuais". Segundo Hutcheon, como se pode detectar em Buck-Morse, "os textos pós-moderno contestam a visão segundo a qual o papel da crítica é enunciar aquilo que está latente ou oculto, seja ideológico ou retórico. Eles decodificam a si mesmos por meio da ênfase dada a suas próprias contradições".
           Mas assim tudo o que se relaciona à visão marxista, inclusive a "dialética negativa" da Escola de Frankfurt seria contribuição "valiosa no exame dos paradoxos pós-modernos", (266/267) e mais à frente ela ressalta, entre várias sobreposições registradas por outros autores de preocupações marxistas e pós-modernistas, o fato de que o materialismo pós-moderno tem um "sentido mais marxista, na medida em que apresenta a literatura, por exemplo, como o resultado de práticas discursivas específicas que atuam numa cultura, práticas que definem o que é 'literatura' e transformam a literatura em algo valorizado". 
          O importante aqui é que o modelo dialético do marxismo é útil ao pós-moderno na medida em que integra a contradição, mas o método contraditório hutcheano, suposto adequado ao objeto pós-moderno, não preserva a dialética enquanto objetivo de síntese, nem enquanto objetivo estratégico unificado, pois o pós-modernismo "continua a se contentar com a crítica por meio da contextualização irônica e por meio da desmistificação de suas próprias práticas significativas ( e das práticas alheias ).
         Meu propósito, consequentemente, é mostrar como o pós-modernismo não ambíguo implica a exaustão do paradigma marxista para efeitos de compreensão do que ocorre em nível de antagonismos sociais: não só como Gerth e Mills já tinham estabelecido, em termos de negar validez à redução marxista das civilizações antigas em termos de modos de produção escravistas onde a religião ou a filosofia não podem ser estudadas como um valor independente. Mas também negando validez ao que eles mantiveram como apropriado modelo marxista para entendimento da sociedade capitalista moderno-ocidental.
          Ficando com esse exemplo, é importante notar que Gerth e Mills, em Character and Social Structure, estão se pronunciando em prol de sua caracterização da mudança social (histórica) não centrada numa causalidade única, mas tratada em termos de transformação de papeis sociais múltiplos. Assim eles não chegam ao que Bottomore havia pretendido, a meu ver, como relativização radical das deduções de Berle e Means a propósito da mudança do capitalismo de sociedades anônimas, de um sistema de propriedade para um sistema de controle (decisão).
           Bottomore pensa que até para Gerth e Mills, teóricos da "elite do poder," não teria havido um divórcio real entre ambos, propriedade e controle, de modo que o marxismo podia ser mantido como referencial adequado para o que acontece. Na verdade, Gerth e Mills já equacionavam aspectos de mudança social como o militarismo - que alguns autores substituíam ao economicismo, como papel causal único. Mas não pretendendo uma unidade causal, eles puderam conciliar a imagem, sim, de um capitalismo de gerentes  com a exploração de classes, e foi isso, não o esquema de propriedade, que mantiveram do marxismo.
         A meu ver, o pós-modernismo começou por ser o referencial de discussões em teoria, que tiveram que equacionar os fatores empíricos com os quais lida a produção estética, que já estavam impedindo manter a causalidade única também quanto ao gerado como antagonismo. O neocapitalismo norte-americano desempenha assim o papel importante, porque nele não é a luta de classes, mas o aparato imperialista o fator estruturante.
          Quando Cl. Julien ( "L'empire americaine" ) agrega  seu comentário à perspectiva do capitalismo gerencial, entendemos que as teorias produzidas na visibilidade apenas do processo europeu anterior à guerra fria se tornam por igual defasadas.
            Nota ele que "o estudo clássico de Berle e Means, The Modern Corporation and Private Property", estabeleceu que 1% dos acionistas possuem bem mais que a metade na participação das duzentas maiores sociedades anônimas. Mas dentre estas,  a metade se compõe de indústrias  americanas, "ou seja, no seio de cada uma destas sociedades, o poder de decisão pertence a pequenos grupos de diretores que integram em suas fileiras generais e almirantes aposentados, para entretecer as melhores relações com o Pentágono".
         A expressão "complexo militar-industrial" é emprestada por Julien ao próprio Eisenhower para referenciar os Estados Unidos como um sistema autônomo que Julien se esmerou em esquematizar, mas seguinte significado do militarismo, cuja consequência é o antagonismo mais total desse sistema para com a democracia: "Fundado sobre o império econômico, protegido e reforçado pelo império militar, o American way of life  provavelmente não sobreviveria a um recuo ("repli") ao interior de suas fronteiras nacionais. Eis porque os presidentes dos Estados Unidos tem razão ao dizer que a 'segurança nacional' dos Estados Unidos está engajado no conflito vietnamita, como o estava na guerra da Coreia ou no envio de 'marines' à São Domingos, ou ainda no destino da revolução cubana. Não há um ponto do globo onde os soldados do império possam se permitir baixar a guarda".
        Não obstante muita coisa nessa configuração geopolítica de forças ter mudado desde a transição aos anos setenta em que Julien escreve, a configuração da interdependência do capital central ao domínio sobre o terceiro mundo só veio a se tornar explícita no nosso novo mapa do conflito norte/sul.
          Jameson não deixou de tratar desse tópico em sua utilização do modelo de Mandel para o capitalismo tardio, afirmando que houve uma transição do neocolonialismo antigo para uma dominação cujo lugar histórico se deve à conclusão das guerras de descolonização afro-asiática: "simbolicamente algo como a substituição do Império Britânico pelo Fundo Monetário Internacional". Mas de fato poderíamos perguntar que há de "simbólico" ao invés de efetivo nisso, e por outro lado notar que Jameson não equacionou de modo algum o papel dos Estados Unidos assim como a partir dos anos noventa se tornou óbvio, num novo contexto da terminologia do "Império" estadunidense  como a que foi liberada por Hardt-Negri.
            Em vez disso, Jameson se engajou na dupla intenção de manter a luta de classes, em vez de reconfiguração imperialista de todo o processo capitalístico moderno-ocidental, e consequentemente de neutralizar o terceiro mundo como horizonte efetivo dessa reconfiguração.
       A periodização dos sixties por Jameson é um documento desse objetivo, impossível hoje de ser mantido, como uma argumentação de que todos os acontecimentos históricos ligados à descolonização, que ao longo dos sixties trouxeram o terceiro mundo à consciência dos intelectuais europeus, já haviam passado na transição aos anos setenta, e desde então o terceiro mundo havia deixado de ter qualquer significação teórico-política decisiva.
         Neste documento, Jameson inclusive se contradiz seriamente do ponto de vista metodológico, em relação ao que escreveu no texto que examinamos sobre a lógica cultural do capitalismo tardio onde apelou a Lacan e Althusser, para inserir o seu historicismo sócio-evolucionista. Junto com o terceiro mundo, o estruturalismo ortodoxo destes surge agora como algo que não mais tinha, ou teria cada vez menos, importância.
         A leitura de Althusser pelos olhos de Sartre realizada por Jameson nessa ocasião, realmente despreza os cuidados anti-humanistas althusserianos, mas de fato o argumento jamesoniano foi nítido. Colocar toda influência excentradora na teoria recente unicamente no ambiente anômalo dos sixties, dado o contexto da descolonização, e então mostrar que a persistência da causalidade única em termos de luta de classes, mesmo então, como dos  althusserianos, estava colhendo seus frutos agora, após os sixties.
        Como podemos observar, os acontecimentos não confirmaram esse prognóstico, mas foram inversamente coerentes com a perspectiva de Julien. Eu estaria, contudo, me contradizendo se apenas desqualificasse a visão jamesoniana, em vez de salientar que ela realmente condiz com o que designei o "consenso do corporate state", e de fato não poderia espelhá-la com maior perfeição.
         É por isso que não obstante as intenções poderem não ser comuns, como entre os que defendem e os que acusam o pós-modernismo, seja para abranger ou não o "pop", há um mesmo objeto sendo valorizado nessa ambiência de época anterior à "globalização", o que no entanto só resulta numa contradição ainda maior que não me parece ser constitutiva do objeto, mas sim do desajuste entre sua realidade histórica e o aparato crítico de que não se quis fazer ao mesmo tempo a avaliação da defasagem da proveniência histórica a ele. O desenvolvimento da nossa leitura desses referenciais nos poderá esclarecer sobre ter sido a História que se tornou o ponto de convergência da contradição, e que somente uma profunda ruptura da consciência histórica euro-centrada propicia conceituar um cenário não ambíguo da mudança social.

              6 )
     
          O ethos hutcheano como constante do excêntrico seria que sua identidade posicional comporta o lugar do seu outro dominador, e se o excêntrico interessa-se por desconstruir o domínio sobre si por parte deste outro, não obstante quer reacomodar o outro numa posicionalidade não mais neurótica, alienante da alteridade. Ao passo que a recíproca não é verdadeira: o ethos do sujeito da dominação não comporta posição constituída alguma para o outro dominado, senão em função de si mesmo como dominador.
           Mas assim, como diria possivelmente Kolberg, o problema não seria mais ideológico/moral, e sim inerente a uma teoria do ego em termos de uma psicologia da subjetividade.
         Enquanto cingindo-se à dicotomia de base e superestruturas, onde nestas somente se representa imaginariamente o conflito único classista da base econômica, o marxismo em geral e o althuseriano em particular não precisaram confrontar essa consequência. Mas generalizar o seu esquema sociológico posicional  quanto ao imaginado-como-sujeito em si, quando se trata de antanogismos não classistas vai interferir com problemáticas demasiado diversificadas, e assim impossibilitar o corte dicotômico anulador do sujeito como problemática política tal como ele é referencial na democracia enquanto nível público que se dispõe como garantia de sua inviolabilidade enquanto privado.
          O positivismo como referencial do capitalismo que aqui tenho tratado antagônico à livre empresa comercial-industrial e não como seu sinônimo, implica reconfigurar o seu exercício: o capitalismo não é expressão da iniciativa privada, mas o retorno do monopólio que havia sido interrompido pelos processos de libertação nacional nas ex-colônias americanas. Todo monopólio é intrínseco à história pós-feudal e seja real/imperial ou do conglomerado empresaria, tem sido sempre demonstrável vitalmente dependente da marginalização ou disposição daquilo que hoje designamos "terceiro mundo" como rol de sociedades estruturalmente dependentes.
             Mas se é assim, não ocorreu na reconfiguração do mapa geopolítico recente, que a luta de classes tenha escapulido do Centro para manter-se explícita na margem, como sugerem Eagleton e Jameson; nem se generalizou no sentido do esquema mais básico do antagonismo off-center como parece-me ter sugerido Hutcheon. Ocorreu da luta de classes ter deixado de ser o paradigma único em função de reconceituações que convergem ao que eu designo, como fórmula do capitalismo, Assimetria Internacional do Capital.
      A junção do paradigma da luta de classes e/ou "desenvolvimento" sócio-político-econômico com toda configuração pensável do humano inclusive o "progresso" da ciência à objetividade pura,  é função geoegológica da ocidentalização, como venho esclarecendo.
         Mas aqui importante é salientar o correlato da óbvia empostação subjetivante da proliferação temática do antagonismo social além da classe, como tendo aportado à decisão sobre o seguinte problema. Há ou não um a priori universal de todo recalcado num esquema de dominação? Haver implicaria definir o a priori como diferença instauradora de sexualidade no Real: horror do obsedado puritano, que no entanto assim só vai reencontrar a diferença por toda parte disfarçada em todas as dessemelhanças situadas como tal apenas em relação à sua unidade ficcionalizada.
          Apesar de sua guinada existencial, Jameson  situou o ato socialmente simbólico em termos do nível de expressão da sexualidade subjetiva, além de ter tratado a literatura do terceiro mundo em termos de um caso especial de libidinização. Eagleton, em As ilusões do pós-modernismo e outros textos, parece-me ter equacionado esse novo conceito de um marxismo com lugar para o sujeito, na medida que Lacan, como formulador d o apriori, não obstante a riqueza do seu pensamento captado entre linhas de interpretação diferentes, pode ser lido como defensor da unidade do histórico enquanto evolução psico-social, tendo lugar na cultura ocidental de Platão a Freud.
         Essa é a perspectiva que interessou ao marxismo num momento em que seu objetivismo epistemológico já não podia ser preservado, mas por outro lado a unidade da consciência humanista revelava-se com pouco alcance descritivo numa época em que o capitalismo realmente se tornara tão complexo que o próprio Jameson reconhece disperso por instâncias e níveis independentes.
         O próprio Lacan, como venho repetindo,  imbricou a mais-valia como sintoma, como se Marx, enquanto um dos integrantes dessa história única e contínua ( do saber psico-socialmente evolutivo), houvesse apreendido que o Poder decorre da oclusão da alteridade, nesse caso o proletariado na instauração mesma de uma sua posição destinada à suplência do "mesmo" enquanto sujeito da livre iniciativa, burguês. É a mesma coisa quando o puritano inventa às crianças que nascemos da cegonha, porque para ele o sexo não pode ser uma realidade cotidiana, é um tabu. Ele desloca a diferença sexual, como da realidade em relação à sua ficção a-sexuada, por uma posição fixada como decência, a do tabu. O deslocamento coloca no lugar da realidade, a sua ficção, mas como está nesse lugar, então a própria mentira é instaurada como moralidade.
          Se, porém, não aceitamos um a priori único, o correlato do que assim empreendemos liberar pode não ser necessariamente "o recalcado" como conceito. A inserção da sexualidade moderno-ocidental é que não deve ser generalizada para outros contextos históricos. Aqui a contradição fundamental reside em que do positivismo em diante, o capitalismo é o que está em tela como o que formatou todo o processo político da emergência da sociedade liberal, mas um anacronismo se instala assim.
          Pois, o monopolismo não é algo que tenha o sujeito da iniciativa privada como sua mola, enquanto que por outro lado, a compactação do processo precedente, da livre empresa, como já subsumido como capitalístico colocou o sujeito numa posição limite, como horizonte de toda crítica à confusão do capitalismo com a livre empresa - que no entanto, só foi feita pela própria teoria desde o positivismo em diante, para preservar a unidade do processo em termos de progresso, desenvolvimento dialético, etc.
          O fato que ensejo ressaltar é que a decisão como tal, a propósito do a priori lacaniano, não é feita explicitamente em Hutcheon, que tangenciou ligeiramente Lacan como algo que ora não seria o caso para o excêntrico feminista, ora não seria preciso interpretar porque muitas feministas já o teriam feito. Por outro lado, o pós-estruturalismo a meu ver realmente se enredou numa contradição performática - como se designa o caso em que alguém se contradiz não entre duas proposições que afirma, mas entre o que diz e o que faz.
          Pois, ao optar contra o a priori lacaniano, o que o pós-estruturalismo instituiu foi a possibilidade de outras linguagens no inconsciente, mas assim o que já referenciei como o problema resultante da comunicação entre mundos possíveis, entre sujeitos de inconsciente irredutíveis, reincorpora-se como aporia da própria teoria, pois como ela pode esquematizar na sua linguagem, todas e quaisquer das demais? No entanto é isso, e não manter-se no limite relativo das humanities empíricas, o que o pós-estruturalismo perseguiu como seu objetivo.
         A situação complicada em que a teoria permaneceu enquanto o consenso do corporate state pode manter a imagem de unidade do próprio sistema capitalista como intrínseco à inteligibilidade somente da história europeia, pode ser vista ultrapassada quando o que se almeja francamente não é mais fornecer esquemas fundadores da alteridade, unos ou múltiplos, nem constantes posicionais/situacionais.
       Já entendemos que seja como for, o que se situa como sujeito por esses esquemas é um conceito ambíguo: ao mesmo tempo a singularidade é o que deve ser liberado e o que existe, mas por outro lado ela não é "sujeito" como o do capitalista, que é inversamente o que deve ser criticado e rejeitado - mas que é o sujeito do capitalismo? Tudo o que Marx disse se resume a negar que exista o que a ideologia imagina, e o que a ideologia imagina é sempre existir-como- sujeito. Os homens fantasiam o que na realidade é apenas a luta de classes, o que não é subjetivo.
            O horizonte da compreensão dessa contradição como não dialética, mas um fator de impossibilidade do conceito, é em que encontramos o pós-modernismo não ambíguo. Nele, primeiro a subjetividade foi preservada como o locus do que existe, mas em seguida não foi compactada por alguma fórmula que devesse ao contrário, inscrever sua objetividade no coletivo, como significado "identitário".
         Tenho referenciado Jane Flex e mesmo Gates como referenciais importantes desse novo aporte, mas igualmente Messer ("The emerget decade") é um expoente de apreciação impar. A concepção identitária de uma arte americano-latina dos sixties, cede à impossibilidade da compreensão do conceito porquanto a identidade por si mesma, "resiste à definição".
         Não se trata de algum novo estatuto filosófico da essência, como em Deleuze. Aliás, seria oportuno notar que Jameson se equivocou ao postular o pós-sixties - agora o autêntico pós-moderno, para ele neste outro texto - em termos de uma dominância do pós-estrutural enquanto um "declínio da filosofia". Deleuze, inversamente, é um dos historiadores da filosofia referenciais, e todo o seu trabalho é embasado como releitura dos filósofos.
          Em todo caso, em Messer trata-se do deslocamento do referencial epistêmico, de uma instância gerativa teórica e/ou filosófica, às várias ciências que não sendo totalizáveis numa só, teriam contudo competência temática por igual, como geografia, história, economia, psicologia, política, bem como "outros fatores" - o passado, o presente e o futuro como aspiração; razão e emoção, fatos e ideias - inclusos na pertinência de algo como arte americano-latina dos sixties.
          Tudo isso não se discerne, segundo Messer, ainda se aplicável ao sujeito ou a referenciais grupais (família, nação, continente, mundo), e só o artista pode evocar seu situamento americano-latino, como eu designaria .
          Assim, identidade se torna não mais contraditoriamente utilizado para designar condição objetiva como por exemplo a américa-latinidade, mas seria apenas a consciência pessoal do artista relativa a determinado conteúdo ("content").
            Não é possível generalizar essa consciência. Os artistas americano-latinos que Messer estudou não são nem mesmo necessariamente regionalizados. Eles se integram variamente aos temas ligados ao que se pratica internacionalmente na época referenciada. Mas entre universalidade sem raízes e confinamento identitário, a postura boa, cuja instauração seria objetivo do artista encontrar, teria que ser irredutível a ambos, na opinião de Messer. O fato dessa referência ser de 1966 não anula a sua atualidade, se lembrarmos que, inversamente, é a uma postura mais recente, como a de Jane Flex e Gates que ela poderia ser relacionada, em vez de o ser ao "consenso do corporate state" que estava então se instituindo.
       Outro fator importante a ressaltar como determinando um novo referencial não-ambíguo da pós-modernidade, foi a evidenciação progressiva da impossibilidade do identitário ao mesmo tempo coletivo e subjetivo, para vários situamentos importantes. Jameson se utilizou da crítica ao paradigma identitário, que é algo que não se pode realmente conservar sem ser com justiça acusado de oportunismo, no entanto apenas para reforçar seu argumento contra a importância do terceiro mundo enquanto fator de mudança conceitual.
         Para ele, bem inversamente a Messer, os sixties foram um cenário de intenso investimento no identitário, porque foram ao mesmo tempo o ambiente dos acontecimentos ligados às guerras da descolonização, e a estratégia identitário da raça era então boa estratégia. Mas as guerras acabaram, e dada a tomada do poder pelas forças de libertação nacional o que se assistiu foi a competição pelos postos referenciais do alinhamento ao capital internacional. Jameson não entendeu que assim, apenas tínhamos em miniatura o processo que na América Latina levou décadas para se definir e que reconfigura, ao invés de manter, a concepção do capitalismo. Ele não é um conflito de classes local, mas um aparato de dominação internacional.
        Mas de fato, a fragmentação de paradigmas identitários não é algo apenas referencial ao contexto racial e  da descolonização. Julien, quanto a isso, notou o mais importante, que é a fragmentação do proletariado na medida em que se instaura como fator na própria assimetria internacional do capital. Hoje em dia, estamos habituados a isso, pois sabe-se que a xenofobia recrudesceu na Europa recente por causa do proletariado de lá que vê nas massas imigrantes do terceiro mundo, apenas concorrentes desleais por serem desqualificados como mão de obra quee portanto se torna muito barata.
         O ponto da exposição de Julien importa ao que Jameson interpretou, inversamente, como a consequência da fusão em uma única frente, das duas instituições trabalhistas nos Eua, resultando no A.F.L.-C.I.O. Ambos estão reportando o que se sabe sobre essa fusão como uma manobra operada a fim de obter a expulsão dos comunistas no cenário sindical e da organização trabalhista estadunidense.
          Para Jameson, isso significou outro trampolim para o cenário da política de identidades dos sixties. Se os trabalhadores protegidos pelos empresários por sua neutralidade política ficaram assim, contudo, reduzidos aos que não tinham motivos radicais de descontentamento, por outro lado as mulheres, negros e demais minorias não mais tinham uma base comum  a esse "proletariado", de contestação.
           Teriam por esse motivo ficado "livres" - mas assim como outrora os servos pelos cercamentos, isto é, numa condição de disponibilizados e não de autonomia - "para encontrarem novos meios de expressão política e social". Se essa liberdade é de tal caráter, não surpreende que ao cabo da explanação de Jameson, e como segundo ele teria se constatado pós-sixties, ela revelara-se apenas "uma ilusão histórica", podendo apenas "encontrar sua melhor explicação em termos do movimento e  do jogo superestrutural tornado possível pela transição de um estágio infra-estrutural ou sistêmico do capitalismo para outro".
         Mas isso implicaria que todos se teriam confinado à política de identidades, o que não é fato comprovável. Julien, pelo contrário, mostra que as mulheres especialmente foram muito úteis à causa anticomunista do A.F.L.-C.I.O, como nós poderíamos lembrar a CAMDE como organização anticomunista patrocinada pela CIA e que contribuiu para o golpe no Brasil. De fato, Julien reporta que o A.F.L.-C.I.O estadunidense tornou-se um dos expedientes de arrecadação de fundos para servir à arregimentação sindical anticomunista na Europa, pelo viés inclusive de associações internas exclusivas de mulheres trabalhadoras em determinados setores, as quais eram especialmente solicitadas a contribuir. Assim, não há apenas trabalhadores brancos, masculinos, na frente sindical unificada, mas quanto a essa questão dos fundos de milhares de dólares destinados a organizar a subversão da própria democracia, às expensas da retórica anticomunista, em todo o mundo, seja pela Cia e outras instituições, é importante em Julien.
            O presidente dos Estados Unidos não pode ser considerado ignorante das operações, mas muitos setores da administração pública, sim. Julien mostra uma importante soma sendo levantada em 1967 pelos serviços secretos, ignorada de instâncias financeiras oficiais, e como sabemos, se bem que Julien não tenha tratado desse tópico, em 1968 ocorria no Brasil o golpe dentro do golpe, pois se a ditadura havia se implementado apenas provisoriamente, agora se estabelecia um novo aporte de sua permanência institucionalizada.
        O movimento feminista não foi uma frente unificada, tampouco, o que se pode notar pelo fato de que não há muitos grupos que poderiam ser identificados com o SCUM ("sociedade para esculhambar os homens"), de Valorie Solanas, a fautora do atentado contra Andy Warhol.
         Na verdade, inversamente a essa atitude vários movimentos feministas tem se utilizado de teorias produzidas por homens e mesmo os pós-estruturalistas, e assim contrastado sua estratégia às fautoras, nos Eua, de intervenções agressivas contra os pós-estruturalistas franceses em visita ao país, como reportado por Cusset.
          Sobre isso é importante notar que Warhol, em Popism, relatou detalhadamente o caso de Solanas, ressaltando ainda que não foi bem atendido pelos policiais - eles o sentaram ferido a bala numa cadeira para ser transportado ao hospital, em vez de terem utilizado uma maca, de modo que sofreu muita dor. Para ele, Solanas pareceu uma agente tentando infliltrar-se na Factory, dado seu comportamento interpretável como de agitadora, tencionando incompatibilizá-la com as autoridades legais. Mas ao ser presa após o atentado, Solanas anunciou que ele teria "controlado" a sua vida - o que foi objeto de manchete nos jornais da época.
          De fato, a arte para alguns tão alienada de Warhol foi objeto de censura policial, pois o seu remake de um bandido foragido não pode ser mantido exposto no edifício para que havia sido programado.
         Quanto ao anticomunismo, nos Eua foi uma plataforma política de êxito fácil, como demonstrou David Halberstam ("The powers that be"), mas por programação de partido a essa altura não devemos entender mais, segundo seu estudo, que a intervenção pessoal dos homens mais poderosos das comunicações de massas determina. Não devemos entender a trajetória consequente do pensamento dos políticos em função das respostas do eleitorado.
        Na verdade, Cl. Julien já havia ressaltado esse elemento de composição do sistema do poder norte-americano como algo visível desde os primórdios, como na atuação de Hearst e Politzer, causando a mudança de decisão presidencial quanto à política externa  e desencadeando a guerra da Espanha apenas para aumentar sua tiragem.
         Vários referenciais comuns são visíveis entre Halberstam e Julien para esse processo de dominação da mídia empresarial sobre o político que só fez intensificar-se até se tornar irreversível após o Mc-Carthysmo. Aqui o que estamos notando é que a formação da opinião pública recebe interpretação diferente conforme se trata o assunto.
         Tornando ao nosso tópico, o importante seria notar que a ausência de decisão a propósito do que poderia informar a constante do excêntrico em Hutcheon torna coerente o seu posicionamento moderado quanto ao marxismo, e a suposição de que o excêntrico determina uma abrangência materialista que é ainda mais marxista do que as opções acadêmicas envolvidas com a tarefa de circunscrição de um cânon referencial da alta-cultura, quando  inversamente a isso, o marxismo embasaria que tanto a cultura folk (popular) quanto a alta-cultura são igualmente expressões das práticas históricas. Mas o como destas serem materiais é que desencaderia uma polêmica entre os marxistas e Hutcheon.
           Na crítica americano-latina o mesmo objeto de polêmica pode ser observado na ambiência do "consenso", o que se torna oportuno tangenciar na imanência da nossa apreciação de como o desacordo se enuncia entre Hutcheon e Jameson, mais exemplarmente que entre ela e Eagleton.

   II)

          Hutcheon tratou a constante do excêntrico no pós-modernismo por dois ângulos distintos. O das literaturas que expressam a parole do excêntrico, como a de Crista Wolf; e das literaturas que, inversamente, como em Doctorow e Robert Coover, ironizariam o sujeito centrado enquanto ele mesmo objeto da discriminação social, mas não consciente de que sua comum concepção ao sujeito da dominação - como religioso ou como político tradicionalista - não o salva nem o torna apto para entender o nível em que ele deveria ter postado sua ruptura. 
        Assim, em todo caso, pareceria haver um revival do romance histórico, na medida em que todos os dois ângulos implicam recontextualizar acontecimentos que realmente informaram a história ou ao menos informaram a consciência dos papeis discriminados, como o mito homérico da tomada de Troia. Mas de fato é toda a problemática da formação da opinião pública que o ângulo de tangência direta ao sujeito centrado, vítima ou algoz permite a Hutcheon tratar.
         Jameson utilizou-se precisamente desse ponto para referenciar Hutcheon e sutilmente inverter o seu procedimento argumentativo objetivando uma desqualificação total da capacidade pós-modernista da interpretação qualquer, posto que o que estaria havendo seria a impossibilidade da representação objetiva.
          Entre ambos, o que se mantem em comum, porém, é o distanciamento em relação à responsabilidade de posicionar a mudança histórica do processo de formação, da intelectualidade para a comunicação em massa, o que resulta ora na recusa de confundir midiatização e pós-modernismo estético (Hutcheon), ou inversamente no objetivo de definir um campo unificado periodológico que unifica a ambos (Jameson). Mas é o significado da História e o que foi feito dele na pós-modernidade - se revelado, distorcido ou simplesmente anulado - o que ambos pretendem tornar-se conceituável a partir do exame das produções estéticas.


    01/08

     A crítica guattari-deleuziana à psicanálise como à "interpretose do padre" havia sido uma recusa de algo bem específico, o Édipo como o símbolo oculto por decifrar em todas as ocorrências de sentido. Mas isso não implica qualquer esvaziamento da problemática do objeto.
           A semiotização no inconsciente teria agora por correlato as práticas reais do indivíduo, mas como tal ela haveria de ser feita com os materiais sígnicos à mão, ou para como o esquizofrênico, destaca-los do código em que se encontrariam inscritos ao modo de discursos prontos, ou para como a maioria, refazer esses discursos e aprendê-los.
           Em todo caso, entre as práticas e a semiótica que as codifica no inconsciente como afetos e atos discursivos possíveis,  entram os discursos já existentes numa sociedade tal que entravam ou se compatibilizam com as práticas a codificar. Há uma escolha ética a ser feita no inconsciente "noumênico", como instância semiotizante, entre "bloquear", em junção com  códigos sociais repressivos, práticas no entanto não só possíveis como necessárias ao corpo/"libido"; ou ir contra o código repressivo, criar linguagens alternativas diretamente voltadas contra o código ou apenas outras em relação a ele.
        Mas entre a psicanálise lacaniana e a esquizoanálise de Deleuze-Guattari, alguns resultados são comuns. O que se está por garantir é uma imagem da ciência liberada da autoridade, o que implica a "modernidade" ocidental. Trata-se de caucionar essa liberação como o que expressa o inconsciente em si mesmo.
           O objeto da ciência real, não "pseudo", é apenas o código em que ele se expressa - para ambos os horizontes analíticos. Mas "ciência" real aqui é uma senha para o matematicismo, para a aptidão à formalização ou semiotização.
          Assim, a linguagem comunicativa, em que somos ou devemos nos pensar conscientes, em ambos os referenciais é um efeito terceiro, nem as paixões corporais como por exemplo os movimentos do aparelho fonador, nem o percurso formativo-formal (semiotizante) do inconsciente.
            É o que na esquizoanálise se designa a energia da "voluptas" , em ressonância ao que em Diferença e Repetição Deleuze tratou como a síntese temporalizante do "eterno-retorno"; e em Lacan decorre como funcionamento inconsciente a partir da transformação sofrida no episódio da "castração" tal que a falta nele confrontada como a diferença sexual vai ser empurrada para a operação consciente de atribuir objetivamente diferenças, enquanto o inconsciente apenas converteu a falta  em gozo, a ausência de junção do signo em operação de linearização do significante. 
        Lacan interpõe assim a sua interpretação da função do orgasmo operante da cisão dos gêneros masculino e feminino como algo determinante de toda personalidade subjetiva, em conexão com o fato de que nesse novo funcionamento, em que se completou o percurso da infância, emerge a linguagem comunizável em termos de "simbólico". Enquanto o instância da lei, porém, ela vai implicar também o mesmo alcance ético que vimos tematizado na esquizoanálise.
         Assim também, em ambos trata-se de uma imagem do inconsciente que convém de algum modo ao experimentalismo e "modernismo" enquanto anti-narrativo, não conceituável o inconsciente em termos formativos, pelo terceiro, mas pelo segundo modo da energia, na terminologia esquizoanalítica.
          Na psicanálise pode ser um pouco mais complicado, entre o "imaginário" propriamente, e o simbólico que ao emergir vai contudo formalizar o "imaginário" como uma instância apenas, entre o Real físico e o simbólico, quando até aí ele era praticamente tudo. O que não atrapalha a dedução de que o que o inconsciente faz é formalizar, não, digamos, conversar com um outro hipostasiado para uma imagem da linguagem constituída apenas pela visibilidade das performances conscientes do adulto na sociedade moderno-ocidental.
         Recentemente alguns estudiosos vem realizando propostas de leitura aproximativa entre Deleuze e Lacan, e as semelhanças que examinamos realmente impedem talvez parecer muito surpreendente que à época de uma sua maior afinidade à psicanálise como em Lógica do Sentido, Deleuze houvesse afirmado a semelhança de estoicismo e zen, para afinal, voltando a colaborar com Guattari em O que é a filosofia, ter assumido uma postura ocidentalizante, votando o Oriente como não-filosófico por ser imperial, celeste e transcendente.
         O pensamento lacaniano tem sido utilizado como instrumento de desconstrução da aporia da alteridade da margem, em termos de outro inconsciente - ver por exemplo, Homi Bhabha - para uma interpretação de que essa desconstrução é mais interessante à sua desestigmatização. Não neguei a complexidade do pensamento lacaniano principalmente relativamente aos seus motivos políticos, mas não me parece que uma leitura sócio-evolucionista seja realmente incompatível, de modo que a alter-egologia como posição de uma margem que para-si se coloca como votada  refazer o progresso do Centro, o que é sua ilusão em vez de política saudável,  é um fator importante ao meu conceito.
          O formalismo é portanto antitético à narração, na medida em que é cientificista desse modo que se pretende estar sendo antidogmático: não há uma autoridade que nos venha dizer o que é o Real, há somente uma linguagem autotélica possível. Essa oposição não foi feita, portanto, motivada por uma visibilidade das ciências humanas ou mais especificamente, da História. Mas interfere com elas e com a história.
         A oposição abstrai o fato de que enquanto uma ciência do documento a interpretar como peça de um processo que o historiador pretende estar ocorrendo como o que integra o documento a um mundo de sentido, a História nasce na transição ao século XIX, dentro do mesmo parâmetro contemporâneo de ciência, pela desistência de "representar" além dos seus fenômenos, que só o historiador pode conceituar como tais, a junção deles a algum Real totalizado, digamos, como Natureza.
          Mas em seguida, o Positivismo e o marxismo, recusando como o que decorreria de uma ingênua (intematizada) já presente intepretação do Homem a existência qualquer do fenômeno, impõe como objetividade um determinismo específico - o progresso psico-social ou a luta de classes - formalizante. O que ocorre é a narrativização da história, não o contrário. Ela se torna uma teleologia.
          O que em estética corresponde ao Realismo em sentido estrito: o texto que representa o Real na verdade apenas nos mostra um determinismo sendo atualizado na vida daqueles que no entanto desconhecem o que está ocorrendo nesse nível causal. Vimos que essa minha posição repugnaria a todo althusseriano, a toda interpretação do formal como antitético ao narrativo. Não obstante, ela não implica que o experimentalismo não possa do mesmo modo emergir como pós-realismo e anti-realismo. Não está, portanto, muito distante de uma perspectiva básica a Foucault.
          A esquizoanálise criticou a psicanálise como uma teleologia assim, mas na medida em que institui subsistir um regime mais adequado que todos ao inconsciente (ver Mille Plateuaux; e sobre isso, o Blog geoegologia3), e este coincide com o experimentalismo em estética tanto quanto com a ciência formal contemporânea, não me parece que tenha escapado ao mesmo destino.
       Especialmente em estética, que é o que nos interessa aqui, Deleuze investiu o "procedimento", termo que tem fortuna na teoria da literatura desde o formalismo russo, mas que não devemos pensar que foi mesmo aí visado como algo único, e sim como algo em torno de que muito se discutiu a propósito de como deveria ser conceituado e do seu valor conceitual.
           O "procedimento" em Deleuze, como noção extremamente valorizada,  é a operação semiótica intrínseca a uma obra estética, pela qual ela passa a poder falar dos afetos e perceptos que estão transitando como horizonte efetivo, real, e de que o artista está falando, assim como recriando nessa linguagem adequada a essa experiência. A referência a Lawrence, em "Crítica e Clínica", é um texto deleuziano paradigmático quanto a esse conceito, mais claro que "O que é a filosofia". Chama a atenção assim o fato de que nessa empostação, a diferença entre texto biográfico ao modo de Lawrence, e experimentalismo ao modo de Mallarmé, não é de fato crucial.
          A adequação ou não ao inconsciente, eis a fórmula que se tornou a da crítica desde os primeiros sinais de uma mudança importante, que podemos detectar pelo declínio do Surrealismo às vésperas da emergência do Pop. Começando como uma "abstração lírica", o Pop tem a ver com a crítica que então começou a ser feita ao surrealismo, como não realmente adequado ao Ics, e apenas investindo o que ocorre no que os psicanalistas chamam o "pré-consciente".
          Quanto a isso, é interessante lembrar a censura de Trotski a Breton, anos antes, pelo que a psicanálise estaria interessada na comunicação objetiva, em como ela se viabiliza e como deve ser sobretudo valorizada em termos da sanidade do Homem.
            Os Surrealistas diziam estar investindo a arte do inconsciente psicanalítico ao se dedicarem à pesquisa onírica e à linguagem adequada ao mundo onírico, mas este não era o escopo de Freud. Breton respondera que o Surrealismo se interessava pela fronteira entre o inconsciente e o consciente. Mas ele não pensava assim que isso depois seria voltado contra o Surrealismo por um outro viés.
           À altura da conversão Pop como retorno do Dadá que o próprio Breton havia duramente censurado em inícios de século, no entanto ao contrário do que Jameson supôs como ausência de afeto, retorno "lírico" que por isso foi objeto de certo sarcasmo por parte de Duchamp, o Novo Romance francês não surgia como alguns supõem, como decorrência contínua do texto sartriano ou camusiano. Pelo contrário, surgia como recusa explícita da sua ambiguidade e insipiência por abuso do metafórico, como se pode constatar pelo manifesto de Robbe-Grillet. O que ocorria não era um retorno da censura realista-positivista, mas um novo locus do inconsciente semiótico-formalizante. A meu ver não há texto estético mais lacaniano que "A batalha de Farsália", de Claude Simon.
            Por outro lado, no decorrer das duas décadas do rise estruturalista e pós-estruturalista, entre os anos cinquenta e setenta, a ciência da comunicação (e seu híbrido, a cibernética/teoria dos sistemas) desenvolveu-se muito e foi investida pela fenomenologia-hermenêutica. O recuo habermasiano dentro da Escola de Frankfurt como tradição que vindo de Benjamin desenvolveu uma crítica acerba da "razão instrumental", na medida em que Habermas como continuador dessa escola se tornou porém, inversamente, um prosélito do Iluminismo, talvez possa ser explicado assim.
          Em psicologia humanista e na estética da recepção, a teoria da comunicação serviu para transformar os conceitos, desde seu primeiro horizonte "solipsista", reformulá-los para explicar a consciência já em si mesma interpretada como comunicativa. Aqui a narrativa foi revalorizada. Na psicanálise mesma temos um eco disso, pois se nos focos ante-lacanianos a arte (objeto estético) sempre foi um problema, e mesmo Lacan não me parece muito a vontade com Joyce (ver "O sintoma"), com Jean Bellemin Noel houve uma oposição conceitual entre o texto "fantástico" em termos de fetiche não-narrativo, e o "romance" em que a narrativa se normaliza como um locus de comunicação do significado, o enredo.
        Em se tratando de pós-modernismo, foi em torno da "representação", e não tanto como renovação das discussões sobre o inconsciente, que a crítica se organizou pró ou contra. Mas assim poderíamos esperar que o experimentalismo viesse a ser posicionado na berlinda, enquanto o referencial acalentado daquelas discussões que agora se queria atribuir a uma geração passada de críticos. Nem mesmo Jameson, que atribui a decomposição da linearidade ao pós moderno e não ao modernismo, o tratou como uma contiguidade possível ao "Coup de dés".
         Para Jameson, a representação existiu na arte até o Pós-moderno, este definido como arte "sem interpretação" no sentido de não manter um objeto representável qualquer como seu horizonte produtivo - o que vimos para Jameson significar formalmente "esquizofrenia", em termos estéticos significando que a arte veio a ser apenas reificação da produção descentrada característica do capitalismo tardio.
          O descentramento aí ecoa a análise sobre essa forma de capitalismo de Mandel, mas na verdade também o que vimos em Laclau: todas as esferas da atividade humana se tornaram mercatorizadas, e assim não há mais uma lógica unificada da produção econômica.
          O que não implica para ele, não haver uma lógica do capitalismo tardio. Se não há Objeto, não há Sujeito de sentido, e vice-versa. Mas Jameson não me parece ter realmente assegurado a preminência da ausência de um ou de outro, enquanto uma lógica do capitalismo tardio que explicaria o pós-modernismo. A "representação" abrange ao mesmo tempo a história unificada pelo determinismo de classes, logo uma totalização do sentido, e a mera capacidade de estabelecer um objeto do discurso, o que é conceitualmente o contrário da totalização.
          O que resta um tanto curioso é que por outro lado, em Linda Hutcheon, a defesa do pós-modernismo como oposto a modernismo e formalismo, nem surge como uma opção explícita pelo retorno hermenêutico da narrativa/ comunicação, nem é uma reinterpretação do inconsciente. É, contudo, um retorno da questão da referência que uma teoria do inconsciente já teria considerado solvida, uma vez que como tal a referência é o efetuado para transitar em nível de linguagem intersubjetiva, consciente.
          O exame dos cinco itens relativos à referência destacados por Hutcheon nos mostra que em princípio ela os tratou como o que evitaria a dedução do pós-modernismo como simples volta ao texto realista, ante-modernista. Esses cinco itens podem a meu ver ser assim posicionados: a) identidade paradoxal; b) auto-representação;
 c) intertextualidade; d) extratextual textualizado; e) hermenêutica auto-referencial.
           Sucintamente analisados, esses itens formam a rede "múltipla e indeterminada"  do que ela conceituou como  "metaficção historiográfica", resultando  algo que não é exatamente hermenêutica, ainda que como problematização do estético se aproxime ironicamente do que neste parâmetro foi enfatizado em torno do pós-modernismo, como por exemplo em Huyssen.
            Contra Foucault, Huyssen interpretou o pós-modernismo como um texto em que o autor não mais seria reduzido a funções diferenciais estruturantes dos próprios gêneros discursivos, mas escrevendo sobre sua própria experiência biográfica, possivelmente de amplitude histórica - na literatura brasileira seria o caso de Fernando Gabeira, por exemplo - seria importante resgatar sua existência real, empírica, extratextual.
          Hutcheon não referencia Huyssen para contradizer suas perspectivas. Mas Hutcheon estaria objetivando uma junção como bem pós-moderna, de dois aspectos que segundo ela, o "humanismo" nunca apreendeu senão como antitéticos, como o estético e o político. Isso pode ser o que Huyssen tematizara, mas a meu ver implica a junção ao que Huyssen tratou em termos de retorno da experiência pessoal - o contrário de "experimentalismo" formal - justamente dos problemas de formalização e estilo que o texto literário coloca.
         Assim a "paródia" em Hutcheon tangencia a hermenêutica,para contextualizar a referência, mas desse modo não poderia de fato estar recuperando a dimensão narrativa-comunicativa em que o que o texto gera é a convicção de que ela já existia antes, de que somente ela existe enquanto meio de sentido.
          O conceito de "referência hermenêutica" é utilizado por Hutcheon evitando o sentido de I. Crossman, e mais como em K. Walton. Não como uma referência "flutuante" que se criaria ao longo do percurso da leitura, mas como algo que interpõe a recepção, o leitor: "Assim a metaficção historiográfica evita o 'beco sem saída' da auto-referência".
           Seria um mínimo de preensão das palavras ao mundo, "por intermédio do leitor". Como  podemos supor, é o que pertence à própria macro-extrutura mas não como tema-conteúdo, e sim como endereçamento, pelo que em todo caso uma linguagem comum, e não uma semiótica, se posiciona como estruturante do texto. Essa seria uma demarcação metodológica hermenêutica, e não mais estrutural, conforme o que vimos acima. Mas  como salientei, essa comunidade do endereçamento não é a generalidade concebida como da linguagem em si, à Habermas ou Apel, o que verificamos pela fricção desse item com os demais que lhe precedem.
         A  referência hermenêutica é certamente por um lado, conceito que se apresenta comum tanto à historiografia quanto à ficção segundo Hutcheon, , enquanto em outros trechos ela pretenda que no pós-modernismo não há mais antítese entre ambas. Mas como listei, a referência hermenêutica é o resultado a que aporta a rede referencial do pós-modernismo, que começa contudo  com a concepção de "identidade paradoxal".
        Ao longo de "A poética do pós-modernismo", a fórmula que define esse item é incessantemente repetida, aplicando-se aos personagens de vários títulos analisados: ele "é e não é" o sr. ou sra. fulano como lhe nomeia e apresenta a obra - como para "Gringo Velho", de Fuentes, Ambrose Bierce "é e não é" o Bierce da história.
          Assim desfaz-se a diferença entre o sujeito referencial da história real e aquele que seria reproduzido na ficção. Mas do mesmo modo desfaz-se a identidade. Tolstoi cria um Kutuzov que no entanto nem preexiste no estado bruto da efetividade, nem é sem relação com o que foi elaborado deste como agente do fato histórico pelos historiadores. O pós-modernismo colocaria isso em evidência por procedimentos determinados, em vez de simular estar recriando a história para assim apenas melhor demarcar a diferença da ficção, opondo-se assim frontalmente ao Realismo ou ao romance histórico tradicional.
          O item seguinte relança o que se nega depois em termos de "auto-referência". O pós-modernismo de fato a produz, mas como um "indicador de metaficcionalidade", como quando o próprio nome do protagonista se torna produtor de sentido dentro da trama.
            Aqui a linguagem "não pode se prender diretamente à realidade, mas se prende basicamente a si mesma". E como intertextualidade, o item posterior, o beco sem saída como consequência desse procedimento de auto-referencialidade começa a se desfazer, posto que por exemplo o nome de Mauberley na obra de Findley ("Famous last words") vai interpor "um intertexto específico", não só indicando metaficção, o poema de Pound. Isso conduz ao quarto item, o extratextual textualizado. Conforme Hutcheon, para explica-lo, "a diferença é de ênfase". O extratextual é a História como intertexto, mas a textualidade é a própria "historiografia como apresentação do fato, como a investigação textualizada do acontecimento". 
          Ainda que tudo isso vá implementar o que vimos como referência hermenêutica na acepção de Hutheon e Walton, o importante é salientar que a rede situa o pós como elevação do nível proposicional ao do "discurso". Ou seja, ao determinante da recepção que é assim transtornada, pois o deslocamento do dado ou natural proposicional desmistifica a sua expectativa "ideológica" e mesmo a mais básica, a de que há um sentido não textual acessível, em sentido hutcheano, de que há uma verdade não-ideológica. 
          Seria interessante notar, contudo, que a intertextualidade e o dialogismo (endereçamento) são conceitos já existentes desde Bakhtin, portanto não de fato dependem do pós-modernismo para terem sido viabilizados como fórmulas de toda textualidade em si. Hutcheon não deixou de alinhar com um expoente modernista, Brecht, a rede do que poderíamos designar a alter-referência metaficcional-historiográfica.
          Realmente não podemos deixar de concordar ser afim ao teatro brechtiano "o retorno autoconsciente do texto do pós-modernista ao processo de performance e à integridade do ato enunciativo" que "exige que o leitor, o você, não seja excluído, mesmo ao lidar com a questão da referência".  ( Obviamente isso não implica o que um programa universitário brasileiro recente implementou como obrigatoriedade aos redatores de suas apostilas, não completarem mais de três frases sem interpor uma pergunta dirigida explicitamente ao "você" do tipo "o que você acha sobre isso"? ).
           Mas o problema aqui é que não se podendo decidir entre a hermenêutica do endereçamento e a formalidade do "discurso", o dilema é re-expresso na dedução pela qual a rede referencial do pós-moderno implica o oposto da langue ("discurso") em termos do que Hutcheon designou "vingança da parole". Hutcheon supõe mesmo que "estruturalismo" e  "discurso" são coisas tão distintas quanto um mecanicismo da langue e a ênfase linguística no uso (ato enunciativo).
          E como exemplo dessa segunda apreensão, ela se utiliza ao mesmo tempo da "intencionalidade" eagletoniana e do "inconsciente autêntico" jamesoniano, aquele que "foi reprimido juntamente com a história" , como à página 112 e seguintes, na suposição de que a reconceituação recente do escritor como produtor, e não como criador original do texto, é algo antitético ao modernismo que em vez disso teria apenas afastado a posição do escritor como um problema real, uma vez que nele existiria apenas o formalismo do texto.
             A inserção pós-moderna aqui é que ao tematizar o problema da produção textual, como a do escritor, o pós-moderno está lidando com reescritura como o que este faz, e assim por outro lado, "o produtor do texto (ao menos do ponto de vista do leitor) nunca é real ou sequer implícito, mas sim inferido pelo leitor a partir do seu posicionamento como entidade enunciativa".
         E desde bem antes, havia posicionado Foucault por meio de uma problematização ambígua do sujeito, como adequado a essa mesma transposição. Ora Foucault preservaria o sujeito coerente às "coordenadas espaço-temporais específicas do ato enunciativo" (p. 115); ora não o conserva "coerente" (P. 29), posto que não é transcendental à variação dos atos; e seja como for, para ela Foucault pergunta quem está falando no texto - em vez de apenas re-enfatizar que não importa quem fala.
          Essa reflexão nos deve conduzir a uma reconfiguração da História em seu significado - que é ser textualmente construída e por isso não é só a intertextualidade um aspecto ideal, mas material à elaboração de qualquer texto: tanto histórico-científico quanto ficcional, o que resulta na concepção de que não há diferença fundamental preservável.
            Essa reflexão, como assinalei antes, se desdobra no exame de dois tipos de construção, a que ironiza o sujeito centrado e a que reporta a parole do excêntrico. Mas quando iniciamos o exame pelo primeiro tipo, o que vemos criticado é a identidade total entre uma interpretação idealizante da História e o Sujeito que lhe corresponde como seu crente e sua garantia de estar atuando em conformidade com o sentido assim ao mesmo tempo produzi e ocultante do meio de produção.
          Parece-me algo truncada essa demonstração, na medida em que ela deve nos fornecer, não obstante as exceções como Brecht, uma totalidade a-crítica modernista e uma consciência crítica pós-moderna, mas isso é o mesmo que estar acreditando no caráter não-heterogêneo do histórico em cada caso, sem que possamos apreender o que determinou a exaustão de um e a emergência de outro. E se, ainda, as referências às mudanças epistemológicas, como na própria visão historiadora, não é para se deduzir de uma ordem ulterior ao próprio fenômeno do pós-modernismo metaficcional.
          Robert Coover realmente escreve que o promotor no caso Rosenberg, tentou "fazer o que depois poderia não se assemelhar a nada além de uma série de ficções sobrepostas entrando em coerência num convincente aspecto de continuidade histórica e verdade lógica", na citação de Hutcheon. Assim ele está, pela perspectiva de Nixon como um dos personagens históricos, demonstrando somente a inconsistência de um espectador interessado em um tipo de desfecho do caso, em vez de outro.
          Mas para ela, citando também MacCaffery, o romance se deixa fascinar pelo "poder da história para subjugar os acontecimentos ao padrão", (grifo meu) e Coover teria problematizado, para Hutcheon, "toda a noção de evidência externa", questionado "a objetividade do relatorial" e complicado "os conceitos frágeis, e muitas vezes não examinados, do histórico e daquilo que se 'sente' dentro dos discursos humanistas da história e da literatura."
           Os próprios personagens seriam apenas reflexos desse fascínio produzido pela História em seu poder de ficcionalizar um único sentido para os fatos - o comunismo para as vítimas, o anticomunismo para os algozes.
         Comentando esse caso, Cl. Julien recordou "o juiz Kaufman que, em 1951, mandou para a cadeira elétrica Ethel e Julius Rosenberg após haver decretado, o que na França seria um motivo de cassação, que eles seriam responsáveis pelos mortos da terceira guerra mundial".
         O que assim está sendo observado é portanto nada que tenha a ver com a multiplicidade teórica subjacente à produção da história como ciência, mas sim o que decorre do poder de homens como os que reunidos no anfiteatro do Departamento de Estado em Washington, se dispunham a ouvir o discurso de Paul Goodman criticamente voltado contra eles. Julien se pergunta como pensam estes homens, que para demonstrar seu liberalismo não interferiam com o orador e até o aplaudiam ao fim.
           A meu ver Goodman não foi de fato lá muito acrimonioso, como o próprio Julien sublinhou ainda que respeitosamente como um sinal de boa estratégia. Em todo caso, parece-me óbvio que esses homens não teriam nada a temer por ouvi-lo, ainda que paralelamente quem quer que se expressasse assim na América Latina podia estar sendo condenado ao horror da repressão política, orquestrada por aqueles mesmos homens. 
          O que estamos notando aqui é a defasagem entre os rumos dos acontecimentos, decorrendo do poder de homens como estes e dos seus semelhantes na empresa capitalista-midiática, e a problemática epistemológica da história, já que dificilmente poderíamos entende-la como algo determinante dos próprios acontecimentos. A ficção não é o meio em que decorre a efetividade, e se o texto é o meio em que ela se torna "histórica" no sentido de viabilizada à posteridade como conhecimento do que houve, não é tão simplesmente a inter-relação textual-fenomênica uma questão resolúvel.
        E quando se trata da parole do excêntrico, Hutcheon nota que se Coover sabiamente não procedeu a separação humanista entre história, arte e ideologia, ele manifesta assim a pós-moderna "consciência das consequências ideológicas dessa rejeição da relação entre a história da sociedade e o espaço", isto é, a rejeição modernista. O que em termos literários transcodificaria o insight de Cassandra, no romance homônimo de Christa Wolf, a propósito do vínculo entre história e texto.
          Ela estaria escrevendo sua estória para que o tempo não o oblitere - como poderíamos citar de Heródoto, mas Hutcheon diz apenas que é para "preencher o registro histórico de Troia". Entre estória e história, ainda que ambas tenham um referente suposto saber, o hiato se põe por isso que não se trata para Cassandra da história da guerra, mas sim da estória das mulheres que ela teme jamais vá ser contada na circunstância de ela própria, Cassandra, desaparecer sem deixar vestígios. Assim a história que passa a ser contada por ela  é a que os escribas não relataram - da "dor, felicidade, amor", em vez do "registro dos grãos, urnas, armas, prisioneiros", na citação de Wolf por Hucheon. Essa estória sendo das mulheres, é (e só pode ser) ao mesmo tempo a sua história que assim se define apenas oral, provisória e pessoal.
        Mas esse estatuto da oralidade é aquele mesmo que Jameson atribuiu à narrativa realista, atrasada portanto, do terceiro mundo na atualidade, como estatuto psíquico infantil de um percurso que no entanto poderia ser revolucionariamente investido para resultar no que todo sócio-evolucionismo prescreve como o mais desejável - provocando assim vivas controvérsias. Não é certo que Hutcheon tenha colocado a oralidade neste paradigma lacaniano, mas também não é certo que não tenha sido assim que o posicionou. Em todo caso, ele pode ser definido como o tenho situado "geoegologicamente", ou seja, nos termos mais básicos da auto-posição do Ocidente ("modernidade") enquanto dotado de História, frente aos povos que frente a ele então somente estão situados na oralidade, isto é, no Mito.
          Assim, não investi metodologicamente por si mesmo o esquema freudiano, mas sim o reconduzi ao seu a priori epistemológico.
            Realmente, a ausência da história das mulheres decorre em Hutcheon, para Wolf, do fato dessa história não pré-existir no mito homérico de Troia, como naquela história que poderia ser escrita "nas tábuas dos escribas". Aqui podemos observar,  pela perspectiva da Geoegologia, tratar-se justamente desse mito homérico em termos de uma escrita duplicada pelo horizonte histórico-ocidental, sendo ele suposto ocidental nas origens enquanto grego: "Não temos nome para aquilo que falou fora de mim", ecoa a troiana Cassandra.
           O problema essencial para a heroína Cassandra é que o sistema de valores gregos é o único que vai transmitir a história  (não o mito), e assim vai tratar como mentira o que para os troianos seria verdade, e vice-versa, como verdade o que para os troianos seria mentira. Mais uma vez parece truncada a junção  de motivos: a história de Troia e/ou das mulheres...
          Mas o interessante aqui seria, primeiro, cotejar esse locus hutcheano ao modo como Jameson o tangenciou precisamente, pelo viés do exame de Doctorow; e em seguida observar como a tese de Jameson sobre a oralidade do terceiro mundo se conecta ao que na crítica americano-latina estava sendo proposto em termos de conceitos adequados ao mesmo foco de produções estéticas, como uma base para o tópico da polêmica recepção da tese de Jameson no terceiro mundo. Por aí a questão da posição do autor revela-se um link útil ao situamento do "novo" dessa produção, como foi salientado por exemplo em J. J. Saer.
          Espero que a apresentação desses itens seja bastante para de um modo sucinto  anteceder o desenvolvimento do terceiro trecho do nosso roteiro (ver Geoegologia3).


            02/08

      Há um ponto sobre que a aporia metodológica que resulta do fato  de "A poética do pós-modernismo" convergir encaminhamentos teóricos muito diferentes pode encontrar esclarecimento.
           O endereçamento pós-modernista em Hutcheon não implica a reposição na literatura, do sujeito transcendental   ainda que fosse como "consciência" apodítica atuante na linguagem,  não obstante a conservação da terminologia da "intencionalidade".
          O transcendental dessa forma conservado não se confronta diretamente ao romance Realista típico do século XIX, quanto à performance de integração da linguagem, digamos, comunicativa. Mas o fato de conservar-se estilisticamente afim não implica que o mesmo determinismo causativo está sendo apenas repetido, para personagens que diferentemente do narrador ou da evidenciação na trama, o desconhece. 
          O Romance Realista típico é híbrido do Positivismo radicalmente materialista onde foram lançados os conceitos desses determinismos, e inclusive o fisiológico-sexual antes de Freud, como na estética de Courbet e no Eça de Queiroz da fase tipicamente realista.
          No entanto a forma de "narrativa de experiência pessoal", como o designou Huyssen, pode ser lido como relançando na pós-modernidade o gosto benjaminiano explicitado em inícios do século XX,  de ser o comentário aberto de uma tradição, que iria portanto suscitar mais comentários numa reposição do papel real das culturas tradicionais - como a judaica - que já não podiam ser preservadas na sociedade capitalista. 
         Benjamin o colocava contrário à aventura individual do sujeito desorientado "realista" nesse sentido de positivista, sujeito de um processo determinante que no entanto ele mesmo desconhecia. Para Benjamin o que estava em questão não era o processo. Ele o pensava como uma narrativa fechada, ou seja, onde o indivíduo vive uma aventura com um desfecho determinado, mas para Benjamin isso era incompreensível: o que poderia interessar a uma comunidade ligada por laços de sentido tradicionais, a sorte e a experiência unicamente individual?
          O de Benjamin, como vimos nos Blogs anteriores a este, é um período ainda pouco compreendido na história europeia, na medida em que para muitos ela é o símbolo indecomponível das liberdades democráticas, e no entanto nele, como desde Nietzsche, o que a maioria dos intelectuais estava interpondo era uma crítica acerba da sociedade democrática, pois já não podiam vê-la senão como mera demagogia de grandes capitalistas que na verdade haviam varrido do ar as liberdades que o povo antes, de qualquer modo, já dispunha.
        Que isso é assim não me parece hoje senão uma interpretação interessada, afim a problemáticas do tempo tais como a xenofobia antecedendo as duas guerras e sobretudo dependendo da distorção positivista que já conceituamos, de que resulta a junção causativa na verdade não demonstrável, da liquidação do sistema feudal à emergência do Estado de direitos civis ou sociedade liberal constitucional. 
           Podemos então suspeitar que a simples transposição da crítica benjaminiana de arte e sua prescrição da boa narrativa não seja autêntica, mas isso é um tanto complicado porque ela encontraria viva ressonância em teorias da consciência comunicativa como a de Habermas e Apel, portando apenas sendo transposta para o contexto da "comunidade de interpretação".
          A benjaminiana narrativa aberta de experiência histórica pode se entender como em
Bakhtin, que  no entanto  elogia o romance objetivo e realista, mas porque este está sendo agora visado ele mesmo como um processo de desvelamento da consciência de si do herói - duplo do autor - o qual só se possibilita pelo seu confronto intersubjetivo aos outros personagens na situação histórica ou ficcionalizada como possivelmente histórica.
             Aqui o sujeito transcendental é o fenomenológico, e em Apel mais explicitamente ele é a comunidade de interpretação como transcendental, em todo caso, sujeito dessa consciência cujas performances retratam o que se supõe que o cidadão comum da sociedade contemporânea ocidental compreenda como atos de sentido. A teoria explicitamente afirma que as comunidades de comunicação são tradições separadas, que se entretecem de um acordo intersubjetivo e não de a prioris formais pre-existentes, mas obviamente  o "transcendental" é aquilo que repõe um sentido do universal.
           Transpondo esse limite aos dias de hoje, podemos notar como a tentativa de manter-se num referencial comum de interpretação, por exemplo, um referencial comum de juventude, tem resultado na diluição do Pop enquanto tematizando a estética comunizada de histórias em quadrinhos ou arrojados protótipos de motocicletas em cenários hiper-realistas, para uma imposição massiva de estereótipos midiáticos vazios de significação senão o de serem propagados em massa e por todos conhecidos.
         A mídia, os símbolos da imaginação  religiosa, são usadas do mesmo modo, para veicular não o questionamento dos valores ou a materialidade de suas produções, mas para sublinhar (banalizar) o já banalizado estereótipo de papeis sociais estanques, "naturalizados" - com resultado, portanto, ainda mais "fechado". Não creio que o texto de experiência pessoal pós-modernista não realiza necessariamente essa simplificação, não obstante o que foi interpretado por alguns críticos adeptos do formalismo modernista.
          Assim como o limite da teoria da comunidade de interpretação transcendental, vemos que nela o acordo está sempre já feito e não o vemos sendo feito, se ele existe, como veríamos se os sujeitos pudessem ser constatados na empiricidade de suas diferenças antes do acordo ser feito, mas isso é uma impossibilidade lógica dado a natureza conceitual do "transcendental" como condição de possibilidade de qualquer experiência ou realidade empírica.
           Não é assim,  ou como retorno a isso, como salientei, que Hutcheon parece estar situando o pós-moderno, na medida em que ela situa a textualidade como o locus onde o sentido emerge, portanto em uma construção literária ou de estilo, na linguagem - que não é portanto, mais o locus do universal.
           Muitas aporias se esclarecem se notarmos que o endereçamento deixou de ser universal ou comportar categorias universais, para se tornar o de um status determinado: às mulheres, aos negros, aos homossexuais; a partir de uma produção em que o estilo se constitui de seus "discursos" - mas para Hutcheon isso não implica o foucaultiano a priori histórico, e sim o que se não está suficientemente definido creio poder se apreender como, recursivamente, essa linguagem construída para esses sujeitos posicionais da recepção em suas situações históricas precisas.
           O leitor que não integra o status não é contemplado por uma recompensa de sentido ainda que forjada por ele na sua frustração de não se tratar do reconhecimento de valores, mas da transmutação dos valores. Como diria Jonathan Culler, a desconstrução seja como for implica ironizar a concepção de que a literatura ou a teoria é onde um menino ávido por confeitos pode exercitar-se em coletar um bom número de efeitos etiquetáveis.
          O problema aqui é que se é assim em Hutcheon, por um lado está havendo uma materialidade da linguagem tematizada como metaficção, mas por outro lado, e também porque as categorias dessa materialidade não foram levantadas dado que isso repugnaria à condenação do formalismo, não há uma diferenciação conceitual no interior do status excêntrico tal que ele, referenciado apenas como coletivo - ainda que particular coletivo, como poderíamos salientar - torna ao problema suscitado pela posição transcendental do status comunitário.
          O que foi levantado nos itens que estudamos comparte ao aspecto desse coletivo, não ao aspecto da materialidade textual. Portanto, ao caráter historiográfico, e não tanto ao "metaficcional" além de ironia  e paródia, o fato mesmo de algo estar sendo aparentemente recriado como situação comum a um grupo, mas como situação história visando esse grupo na perspectiva de sua reconstituição em vez de na perspectiva interessada na inserção de sua particularidade numa generalidade.
          Mas assim uma posição sobre o histórico foi tomada, e bem contrastante com o que aquela pela qual o que designei pós-modernismo não ambíguo tem optado. A decisão aqui tem sido ventilada como entre história contínua e descontínua, o que se imbrica à questão mais ampla do excêntrico, para usar a designação, enquanto identitário ou apenas situacional, subjetivo e portanto não definido coletivamente.
          Isaac Balbus foi um dos acerbos adversários de Foucault, defendendo a história contínua como a única que poderia interessar ao feminismo - a história seria assim em todo caso sempre a história da exploração das mulheres, da inveja dos homens à mera possibilidade da expansão da personalidade feminina, etc.
            Esse é um ponto de vista que como já salientei não pode se revelar como mais que oportunismo - como foi dito de Diop, que tentou reduzir toda história da cultura a apropriações por parte dos brancos do que seria a origem negra/africana, como já os gregos em relação aos egípcios.
            Essa hipótese não resiste à análise, porque por um lado, a cultura aborígine americana não tem a ver com processos assim, e por outro lado empréstimos veificados como dos cretenses à arte egípcia ou depois, de gregos a fenícios, não explica por si só a cultura cretense ou grega que vai ser pelo contrário expressiva de inovações e rupturas total para com os modelos antes imitados - por exemplo, os gregos inventam a trirreme que nunca foi conhecida pelos fenícios.
            E quanto a uma história contínua da opressão do feminino, como responderia Butler é uma contradição em termos por que a questão feminista, se existe, é a de como se constrói o feminino além do sexo biológico, uma vez que não há um a categoria do feminino universal, transcultural, independente das diferentes formulações em culturas diferentes, não obstante haver uma biologia da espécie e a delimitação do propriamente cultural não ser tampouco o que era para existencialistas, a priori a negação do biológico (prático-inerte/ objeto em si). 
          O ponto a esclarecer é que para Judith Butler, a destinação cultural não explica, mas tem que ser explicada, na medida que por si só não está impressa na cabeça e no corpo de ninguém - não é subjetiva, é histórica. Como é que um indivíduo biologicamente sexuado integra uma determinada destinação cultural da sexualidade?
           A pergunta não pode subtender que a integração é necessário, a priorística, transcendental, pois nada garante que realmente aconteça - e por vezes, não acontece, sendo esse o locus de situamento problemático da questão. Se sempre acontecesse, não haveria questão cultural alguma, nem mudança social, etc. A psicanálise tende a obscurecer o caráter realmente problemático disso, na opinião de Butler, tanto quanto o faria o existencialismo.
          Jane Flex  posicionou-se a meu ver de um modo coerente com o de Butler, mas para Flex é mais uma questão epistemológica, semelhante ao que situou Messer. Ou seja, conforme Flex, nós precisamos nos interrogar  sobre como estamos pensando o gênero sexual, sempre que se trata de gênero em nossas cogitações, e para ancorar esse posicionamento do feminismo não-dogmático, não prescritivo, Flex se apoiou justamente em Foucault, em sua arqueologia do saber e  história descontínua. Enquanto Butler não foi muito favorável a este, supondo-o ainda demasiado culturalista quanto à problemática do sexo.
       É certo que Hutcheon cita Veyne em meio a outros historiadores que teriam rompido com o conceito totalizante de história e assim informado a novidade estilística do pós-moderno, mas para ela totalização não parece ser o sinônimo dessa "continuidade" que se tornou conceituada pelo particular coletivo, nos anos oitenta. 
         Em termos de História em si, a continuidade coloca problemas metodológicos tais que se fosse adotada tornaria realmente o pós-moderno como horizonte de cultura acusável de retrocesso na inteligibilidade. Pois, a História como ciência não é erudição e emerge junto com o Romantismo, em ruptura com a erudição conceituada desde então como o tratamento pseudo-histórico do "passado", tal que os acontecimentos serviam apenas à ilustração de uma moral extrínseca a eles, como por exemplo à escatologia religiosa cristã. 
             Nessa ruptura para com a erudição, a História deixa de ser "memória", portanto a ruptura sendo para com a oralidade. A oposição entre oralidade e textualidade é o que não se apreende em A poética do pós-modernismo. Essa ruptura de que a História emerge como ciência,  a torna ciência do documento que sabe-se assim situada no presente, de modo que a inteligibilidade que se quer haurir visa processos cujo sentido são conceituáveis desde as perspectivas atuais, e não pensados atemporais ou já teleologicamente impressos desde o início dos tempos.
          Desse ponto de vista, a acusação de estar restando na erudição chegou a ser feita, como observou Glenisson, pelos pós-positivistas aos positivistas que como se sabe, eram minuciosos colecionadores de fatos, à exaustão.
         Um outro aspecto que podemos salientar da opção hutcheana por um tipo de história contínua como podemos pressupor que foi o caso dado a sua análise desse histórico em Christa Wolf, é que ele intercepta um fenômeno de mercado efetivamente reportado recente, da transposição da produção a uma fonte setorizada, por exemplo como literatura americano-latina - em vez da fonte habitual, o escritor ocidental/ocidentalizado que detém o conhecimento objetivo de como as coisas de fato são - conhecimento que, por conseguinte, é suposto independente do tempo, condições e lugar de sua produção.
           Mas isso relança o mesmo problema em um novo sentido. O que é a setorização da fonte: a parole de um "outro" identificável como tal, ainda que positiva e não mais negativamente; ou o horizonte plural de problematizações, do literário e de outros aspectos, que não haviam aflorado antes?
          Jameson atacou o pós-moderno por um lado, mas por outro não o estendeu como um referencial dessa problemática, que teria extrapolado o estreito significado da cultura,que ele queria unificar como expressão da luta de classes, não podendo portanto colocar questões independentes das que nessa posição colocaria.
              Sobre o pós-moderno como fenômeno restrito ao modo de produção do capitalismo avançado, não seria situável no terceiro mundo, e por outro lado implicaria, inversamente ao que propôs Hutcheon, um desfazimento de qualquer horizonte de historicidade na cultura, posto que o capitalismo tardio é o momento em que todas as forças alienantes da ideologia se juntaram e estão em máxima plenitude na sua capacidade de reificação das relações humanas em partes integrantes "naturalmente" do que é apenas o processo de exploração capitalista - em vez de luta pela vida, iniciativa privada escalonada conforme as capacidades de cada um, etc.
            Mas Jameson crê na naturalidade da produtividade como objetivamente progresso - assim o que no Centro é um momento dialético que a luta de classes pode vir a ultrapassar se o modo de produção for compreendido em toda a sua determinante natureza e  a história movimentar-se consequentemente com vistas à sua mudança para uma sociedade de produtividade/racionalidade total, na margem é um hiato, um vazio, uma ausência de dialética (história) que então pode ser ultrapassado pela mesma historicização - integração ao processo único de sentido, o revolucionário.
            Eu não creio que Jameson seja humanista, mas sim que ele se deixa capturar na mesma aporia do marxismo determinista. A meu ver há algo de obviamente errado no argumento pelo qual não importa como a humanidade, mas só importa o proletariado, porque o sentido da humanidade é o proletariado. Visar isso como um erro não implica que subentendemos um sentido alternativo ao do proletariado, redutor de tudo o que a humanidade é ou pode ou deve ser.
          Esse é o impasse entre história em sentido autêntico, e história, digamos, erudita que no entanto quando se trata de marxismo se reveste do caráter polêmico "antihistoricista" precisamente porque se auto-atribui como único científico.
           Para Jameson, Hutcheon não percebe que em Doctorow a restauração da História pela  textualidade é apenas aparente, pois é feita por um presente narrativo que só se torna comum ao produtor e ao receptor ideal do texto, enquanto ambos convém partilhar uma cena puramente imaginária.
           Jameson aqui me parece ambíguo, porque esse situamento no imaginário ora se diz dever-se a que o romance induz à falsa concretude e intenta instaurar no passado a cena mesma - ao invés de guardar a distância da linguagem comunicativa em relação ao seu referente. Ora se diz, pelo contrário, estar impossibilitando que o passado seja objetivamente conservado pensável como algo que realmente foi - como um "objeto" da representação.
            Para Jameson, em todo caso, só se não fosse um artefato pós-moderno, Ragtime seria coerente como uma narrativa historiográfica, mas poucos leitores, tais como Hutcheon, poderiam lê-lo assim, se não passa de um objeto verbal colocado perto demais da vista para ser captado com algum sentido pela maioria das pessoas. Jameson salienta assim que o aparente objeto da representação, os personagens, não são unívocos em sua objetualidade. Um personagem é histórico, outro ficcional, e outro, intertextual.
          Mas o que Hutcheon argumenta, é que no pós-modernismo, todos são interterxtuais, pois estão reescritos de textos mesmo quando são históricos - nesse caso, o texto é o dos historiadores. Além disso, o propósito da controvérsia sobre o caráter pós-modernista de Doctorow é justamente que nele novamente se constata a sintaxe preservada - em vez da quebra da sintaxe dos experimentalismos modernistas.
         Ragtime está traduzido no Brasil e eu particularmente não constatei nada de muito ilegível no texto, até mesmo considero os personagens e cenas mais unificados em sua construção, e coerentes com a reconstituição de época, do que a própria Hutcheon estabeleceu.
         É claro que "literatura" é um horizonte muito plural de níveis de informação cultural relacionáveis aos setores de público em função de gêneros e preferências, níveis que refletem na microestrutura - o léxico e as possibilidades estilísticas - do contrário teríamos que utilizar uma prescrição que poria fora de jogo gêneros incompatíveis com ela. E Doctorow não é propriamente pouco informado. Mas tampouco o é o próprio Jameson, no entanto escrevendo para um público supostamente afim à mentalidade do proletariado. Supor que esse nível é totalmente controlável pelo produtor do texto literário é uma falácia - supõe que ele tem total controle de toda a variação na recepção, o que é impossível.
           A meu ver muito da polêmica em torno do estilo pode ser reduzida a mera censura da liberdade de expressão. Seja qual for o modo como pensamos que a expressão se viabiliza, ela é livre se apenas se viabiliza - ao invés de ser pré-censurada como repetição obrigatória de uma receita". O que obviamente não implica que toda a teoria da literatura e as questões de crítica sejam assim reduzidas.
         Vemos que em todo caso, essa é uma controvérsia não sem relação com a cisão jamesoniana entre pós-modernismo (Centro/ Europa e Eua) e seu contrário como conservação anômalo-anacrônica do romance realista (margem/3º mundo).
            Pois, a tese de Jameson sobre a "Third world literature in the era of multinacional capitalismo", em que o anacronismo desse realismo vai ser diagnosticado como anacronismo da nacionalidade e toda literatura aqui seria "alegoria [da situação] nacional", surge não mais apenas como aplicação oportuna da sua proposta teórica de um "political unconscious" em termos de três níveis de leitura, tal que resultaria como análise do cultural dentro do modo de produção não ainda multinacional.
           Mas também para colocar fora do circuito referencial à problemática do pós-modernismo, aquilo que no entanto configura um dos mais importantes da história efetiva recente em todo o mundo, a saber, o "boom" mercadológico de fontes ex-centradas, em especial o da literatura americano-latina.
         Jameson evitou a análise de expoentes dessa literatura, e se utilizou apenas de um exemplo chinês (Lu-Xun) e um africano (Ousmane). Mas seria absurdo separar América-latina e terceiro mundo. Além disso, ele não se deteve para explicar como é que essas alegorias se tornam compatíveis com o gosto de leitores em nível internacional. O fato de Ousmane produzir também para o cinema não foi sublinhado como algo que na própria teoria jamesoniana se associa à determinante dos recursos materiais da produção estética em relação à periodização da cultura.
          A evidência de que o terceiro mundo não é necessariamente  informado de modo insuficiente quanto ao seu intertexto cultural, em relação ao que está circulando no primeiro mundo, não deve ser como se poderia supor, imediatamente brandida contra Jameson, como se ele houvesse emitido um juízo muito singular.
          Deleuze explicitou a sua própria concepção de que o cinema do terceiro mundo só tem por intertexto internacional o divulgado massivamente como cinema comercial eivados de violência gratuita. O modo como ele escreve sobre isso parece caucionar a impressão de ser algo que todo mundo pensa no seu meio.
          Mas nem todos estão assim tão mal informados no Centro a propósito, e um dos aspectos que mais tornam esses referenciais estranhos, é que alguns dos escritores americano-latinos mais favorecidos pelo boom mercadológico não mais residiam na América-Latina, mas sim no primeiro mundo.
          Na verdade, essa é uma oportunidade para registrar a minha impressão de total contraste entre o que li recentemente de Lévi-Strauss pronunciando-se no Japão sobre a vantagem de se aplicar conhecimentos antropológicos a problemas da sociedade ocidental moderna, e o que já conhecia da história da antropologia por meio de profissionais como Beattie, mais ligados à pesquisa empírica.
            Pareceu-me simplesmente que o texto recuava ao século XIX, tamanha sua lentidão, como que por supersticiosa cautela, em esclarecer como aquisição da antropologia como ciência o desfazimento de pressupostos etnocentrados e mesmo praticamente havendo uma recusa daquilo que em Beattie revelou-se a meu ver o mais instrutivo, a demarcação da profunda oposição entre antropologia como ciência e pesquisa empírica in loco, e as produções de filosofia ou antropologia "cultural" generalizante apenas de análises de textos.
           Em termos de fenômeno de mercado, tornando ao nosso tópico, na própria América-Latina o fenômeno mercadológico recente suscitou controvérsias cuja reconstituição me parece importante e favorecida pelo artigo de Roberto Retamar a propósito. Mas também a controvérsia estilística local se mostra muito pertinente à discussão da conceituação   "alegórica" jamesoniana.


    8)

      A sociedade liberal como Estado de direitos civis, é aquela em que todos os membros apreendem inteligivelmente (racionalmente) o seu nexo para com a sociedade, mas não porque todos eles tem um conhecimento coletivo das regras ou mandamentos que prescrevem o comportamento sancionado.
           E sim porque as leis não são mandamentos, mas resultam das formas de representação tal que os representantes sancionados pelos demais discutirão racionalmente problemas de convivência específicos e as leis vão surgir da solução que eles consideram a mais justa. As leis estão sujeitas a revisão de acordo com as mudanças ocorrendo na convivência à medida que as gerações se sucedem, e todo o aparato legítimo enquanto racional, ainda assim, só pode ser considerado desse modo se as formas de representação também forem inteligivelmente sancionadas tal que segue-se a representatividade real da sociedade heterogênea.
          A sociedade liberal, que coalesce com esse nome desde o século XIX europeu, não é um contrato da maioria, pois como Berle e Means notaram, um contrato supõe que ao menos uma dentre as duas partes contratantes preexiste ao contrato. Além disso, as leis são legitimadas enquanto valendo para toda a população, e não para uma parte. A noção qualitativa de maioria  tampouco tem alguma realidade de fato - a maioria é uma noção estatística, portanto relacionada a algum fator determinado de sua definição, não há um fator global de definição.
         A antropologia social oriunda da pesquisa empírica, como vimos ao longo deste estudo, tem contribuído para desfazer a noção que perdura por uns cento e cinquenta anos, desde o século XIX, de que o nexo social de racionalidade nunca existiu antes ou em qualquer outro lugar. Pois, as sociedades igualitárias quanto a status podem não ter aparatos formais da vigência constitucional representativa, mas nem por isso se segue que em todas elas o vínculo é sempre o mesmo, um mandamento ritual, irracional (não demonstrado o porque de sua prescrição, não demonstrado em sua relação com o que regula). 
          Vimos que esse é um assunto complexo, mas que em geral pode-se estabelecer que em algumas sociedades igualitárias quanto a status há mecanismos de confrontação de opiniões e de obtenção de decisões como meio termo entre elas. Por outro lado, o século XIX europeu envereda desde após as primeiras décadas pelo processo do imperialismo que converge com a superação total do quadro revolucionário dos seus inícios, com restaurações monárquicas e coalescência de impérios monopolísticos, ambos neocoloniais.
            Quanto à América Latina, sua história é interdependente deste processo, mas pelo que estamos observando, não se pode mais manter a versão habitual dessa interdependência na base de que a sociedade liberal nunca foi de fato compreendida aqui, ora porque se pensa a margem como tipicamente o que ela não é desde os inícios da colonização, as sociedades aborígines que vigiam antes, e se as interpreta erroneamente como irracionais; ora porque o imperialismo impediria o seu desenvolvimento autêntico.
            Mas se recusamos a concepção de sociedade como totalidade, o fato do imperialismo que trato na margem em termos de alter-egologia, não implica a totalidade, e sim os mecanismos do Poder que justamente são os que alijam e marginalizam partes expressivas da população heterogênea.
              A história contínua da luta de classes implicaria a mesma interpretação que hoje consideramos defasada, de uma irredutibilidade psico-social da margem em relação à "modernidade" ocidental, e de fato a sobredeterminação do acesso à sociedade liberal como estruturalmente impulsionada pelo capitalismo - a essa altura apenas monopolismo, mas tendo-se abstraído a livre empresa anterior - se generalizou por obra do marxismo.
        A partir daí, como já salientei, qualquer resquício de formulações contrárias à compactação da conquista da sociedade liberal em termos sócio-evolutivos foi recalcada na teoria como idealismo. O pós-positivismo "tradicionalista" não alterou muito esse resultado, porque se liberou as sociedades como todos de cultura, por outro lado  é onde a oposição de gemeinshaft e geselshaft se originou - como entre comunidades quaisquer e a sociedade racional moderno-ocidental.
         Mas a história americano-latina desses duzenetos anos não cauciona nenhuma dessas interpretações. O Romantismo entre nós implicou uma política de desenvolvimento que não obstante não ter sido oficializada pelo modo como o Império foi imposto sem legitimação das bases, existiu e impulsionou concepções filosóficas importantes, como a que estudamos de Antônio Pedro de Figueiredo.
          Não precisamos do positivismo para já termos formulado políticas socialistas, nem precisamos do concurso inglês como aquele de que dependeu a superação oficial da escravidão, para décadas antes já ter formulado um projeto constitucional como o da Confederação do Equador, antiescravista e democrático, o qual não foi realizado por causa da subvenção inglesa à imposição do Império dinástico luso, que nada tinha a ver com os movimentos de libertação nacional como o da Confederação.
          Atualmente também podemos exemplificar essa discrepância. O machismo que se tem visto radicalizado na Globalização, não é índice seguro da mentalidade historicamente interpretada. É um fenômeno inerente à Globalização implementando-se na transição ao século XXI como neofascismo, por vários dispositivos próprios da desnacionalização da economia e da cultura: sucateamento das estatais em setores estratégicos que agora são de propriedade de multinacionais; implementação direta de toda a mídia pela programação de emissoras internacionais e o mesmo para a micro-informáticas.
         A imagem de Jameson de um capitalismo multinacional cuja intervenção na margem poderia ser definida como mecanização da agricultura é totalmente defasada em relação a países já industrializados, como o Brasil e muitos outros, onde o processo de industrialização vem desde muitas décadas pontuando-se como uma luta entre o capital do empresariado local e o capital internacional.
          A princípio, este objetivou preservar a Divisão Internacional do Trabalho (Dit) tal qual era antes da Globalização, e assim o trabalho sujo das intervenções era feito para impedir a industrialização, o que não chegou a ser muito exitoso devido as duas guerras que ocuparam todos os poderes atuantes centrais.
         Os golpes militares dos sixties e seventies na América Latina implicou pela força bruta o que havia sido o real resultado histórico em termos do amadurecimento das forças de libertação cultural, política e econômica nacionais  - como estudamos com Rene Dreyfuss para o caso brasileiro, a força do intervencionismo direto norte-americano, mas sabe-se que a expansão pelo resto do continente obedece as mesmas determinações factuais e Julien já havia sinalizado para estes acontecimentos analisando o caso Arbens na Guatemala, ao par de sua brilhante cobertura do golpe que resultou na deslegitimação do processo constitucional do Irã de Mossadegh.
          A retórica golpista do combate anticomunista realmente não tem validez local - como se pode ver por esses exemplos. E o próprio "comunismo", onde estava sendo implementado, não o era como uma frente única de interpretação marxista-leninista. O governo de Allende no Chile, por exemplo, preservou-se constitucional, e a adaptação da "luta de classes" à realidade da margem foi muitas vezes mais socialista que propriamente pró-soviética.
          Mas desde a Globalização como nova Dit, o objetivo do novo "Império" - desta vez como a metáfora  do capitalismo central oriundo desses acontecimentos -  é limitar a industrialização local ao estatuto de complementar à do Centro e não independente ou voltada ao interesse nacional. Estudamos minuciosamente esses aspectos da história econômica antes, mas nesse trecho se tratou de salientar os itens principais do nosso argumento, a fim de operar a incisão na visibilidade do que estamos designando o "consenso do corporate state" tal que agora possamos examinar como ele estava sendo refletido na margem.
         (postagem 04/08)/  Na margem, especialmente na América Latina, o período entre o pós-guerras e a Globalização, correspondendo ao que tratei como aquele que no Centro os intelectuais interpretaram de modo praticamente consensual em termos de uma ordem burocrática internacional de capital-Estado, a Leste e a Oeste, na verdade se interpõe como vigência de uma Dit intermediária, a que corresponde ao neocapitalismo norte-americano em sua fase de exportação de capitais.
              Jameson não noticia essa trajetória, e o que nela estava em andamento. Já não se tratava da Dit clássica, em que toda a produção local fica obrigada a se limitar a produtos agrários baratos de exportação pelo sistema de "plantation", ainda que não mais escravista mas preservando-se latifundiária e não vantajosa por qualquer aspecto ao desenvolvimento local, enquanto compromete-se o governo com a compra de manufaturados caros da potência estrangeira importadora que até aqui vinha sendo principalmente a Inglaterra.
            Ou ao menos, não mais escravista oficialmente, pois na verdade há denúncias de trabalho escravo ilegal explorado nos latifúndios até hoje - inclusive de crianças - além de imperar lá os piores barbarismos autoritários. O regime de trabalho para pagar dívidas em armazéns do patrão - que no entanto vende caro e é o único - implica além disso transformar numa relação escravista as cooptações de trabalhadores, como vários sociólogos tem denunciado. Todas as políticas de autonomia desenvolvimentista local foram e são protagonizadas contra as classes latifundiárias cujo poder é sustentado exclusivamente pelos golpes e aparatos imperialistas.
           Em todo caso, no pós-guerras já tratava-se de ligar a política norte-americana de empréstimos, que por si só estudamos com Romanova eivada de fraudes jurídicas e o que é ademais fato bem conhecido, ao componente de truncagem "assimétrica" (na acepção de predatória) pela qual era assegurado total domínio das informações internas aos emprestadores, e implicitamente a obrigação de seguir suas políticas recomendadas.
          O que almejavam era carrear a industrialização local, já com certo grau de adiantamento devido ao vácuo da dominação internacional por causa das guerras, para o capital internacional.
            Houve então um interregno local de duas facções conforme elites que desejavam prosseguir o desenvolvimento independente e as que desejavam implementar as alianças para o progresso com o capital internacional.
              A política de Juscelino Kubitchec nos anos cinquenta assinala uma preponderância dessa opção, contra o que foi motivo do suicídio de Vargas como sua desesperada adesão à opção contrária, e o governo de João Goulart, inversamente a Kubitchec, expressa o sucesso da coalização local em princípio dos sixties em torno do desenvolvimento interno em nível mesmo da adesão das massas, tendo sido o governo derrubado pelo golpe, subsequentemente ao anúncio das esperadas reformas - dentre as quais a reforma agrária e a equiparação do salário mínimo ao custo de vida.
              A mecanização do campo expressa apenas uma das facetas, à essa altura, dos interesses das elites que continuaram o esquema de dependência ao capital estrangeiro. Desde os anos cinquenta, o fenômeno importante dessa dependência foi a penetração da indústria multinacional de bens de consumação. Atualmente, esse processo está completo por total dominação do mercado pelo capital internacional, seja na forma da ação da empresa multinacional liberada, seja na forma do capital misto e demais modos de assegurar domínio oligárquico dos setores.
           As políticas que expressavam a opção nacionalista não foram xenófabas, nem isolacionistas, especialmente no campo da cultura. Pelo contrário, se realmente houve um investimento de reconstituição das culturas marginalizadas pela europeização da universidade, ele influenciou linguagens estéticas modernistas e intensamente relacionadas ao Pop internacional. Somente pela altura dos anos oitenta em diante essa tendência começou a se alterar, mudando radicalmente com a Globalização para um cenário fascistizado "identitário" como numa explicitação do que ficou mais ou menos estabilizado em termos da interpretação histórica.
          Longe de limitar Fannon ao contexto das guerras de descolonização, suas análises sobre a formação de castas impostas pelo alinhamento forçado da economia ao capitalismo fornecem a perspectiva do que ocorre em termos da impossibilidade da formação de uma burguesia local não obstante o fato da independência implicar a formalização nacional constitucional, mas por outro lado, implica a minha dedução que reconceitua o capitalismo em termos de assimetria internacional do capital.
           Pois a impossibilidade da burguesia e imposição de castas pseudo-burguesas (alter-egologia) na verdade é um fenômeno explicável somente pela própria intervenção do capital central militarizado, não por qualquer a priori psico-social local.
         O que se pode esperar é um processo pontuado pelos  constantes desfazimentos pela força externa, dos constitutivos culturais, econômicos, sociais e políticos que a cada vez se implementam como plataforma da revolução burguesa e/ou socialista. Mas esses desfazimentos correspondem à história efetiva do que está acontecendo em nível de Poder no Centro - que assim não se pode mais reduzir a uma história somente local da estruturação da empresa racional, da produtividade, etc.






        II)

              Conforme o que vimos estabelecendo, podemos concordar com a perspectiva foucaultiana sobre a episteme da modernidade, ainda que não com sua interpretação do lugar das humanities nesse "a priori histórico". Basicamente se pode afirmar, para uma leitura em sentido lato de As palavras e as coisas,  que desde o Realismo o a priori está bem estabelecido em termos do determinismo científico estruturante de fenômenos que para a consciência fenomenológica não são estruturados num outro nível de fatores, mas espontâneos e coerentes com a aparência dos fatos.
          Contudo, antes do rise estrutural em sentido estrito, o do século XX, os determinismos eram "positivistas" nessa acepção precisa de que em si mesmo esse outro nível do determinante, uma vez explicado, era totalmente coerente com o que uma consciência esclarecida, mas ainda fenomenológica, pode apreender.
            A expressão "linguistic turn", que Foucault não usa mas é aplicável ao que ele demonstrou historicamente, incide entre ambos os períodos, e se torna o novo meio de toda estruturação que assim não é mais um problema do mundo ou realidade em si, mas somente da consciência como funcionamento efetuado e em outro nível, dos mecanismos inconscientes.
              O modernismo é plenamente um acontecimento inscrito na linguistic turn. Não o posicionamos, portanto, como alguma "crise "da consciência burguesa, ou europeia, etc., ao menos em termos de sua revolução estética, e o vocabulário da crise intercepta apenas a realidade da época das duas guerras e da Revolução soviética, como história econômica, política e social.
         Uma vez tendo em vista esse resumo do que demonstramos ao longo do nosso estudo, podemos colocar a problemática da literatura americano-latina recente, enquanto fenômeno mercadológico, do seguinte modo.
            Ela manifesta a necessidade de se construir categorias ainda não existentes, uma vez que se torna nítido que as existentes, produzidas para a literatura europeia, não são suficientes à sua "otherness". 
          Mas, e se ela coalesce ao longo de um processo literário local em indissociável ligação com o processo europeu, podemos então indagar se é porque ela se inscreve dentro de um Realismo que apenas quer demonstrar outros determinantes, aqueles que seriam proponíveis a partir de uma otherness cultural que infletiria os fenômenos da consciência.
           Ou se ela se inscreve no registro da linguistic turn, e nesse caso toda restauração de verossimilhança e sintaxe é apenas aparente, manifestando-se no seio de uma desconstrução mais profunda em andamento na textualidade.
         Começando pelo exame do artigo de Retamar a propósito da controvérsia em torno do próprio sentido do boom mercadológico, poderemos examinar como as duas opções foram ventiladas na crítica local, esperando assim apreender o que é particular ao seu desenvolvimento - tal que pode ter suscitado  a questão de ser um outro tipo de Realismo, paralelamente ao fato da imensa importância histórico-social que teve entre nós o Modernismo.
           Esse exame me escusará de implementar o item III do roteiro, que espero compactar para o essencial na sua fricção com a discussão do pós-moderno. A ameaça da interrupção da postagem tem me causado uma tensão na utilização do espaço, e espero ser possível ao menos completar este trecho.
             


         III)
              

           

            Em meio aos anos setenta, a controvérsia sobre o fenômeno de mercado da literatura americano-latina ensejou uma interpretação mediada pelo conceito de “intercomunicação” como em Roberto Retamar (“Intercomunicação e nova literatura”).

           Ele discrimina inicialmente dois sentidos desse conceito: “referindo aos autores, conscientes de aspirações e metas comuns; ou referindo-se aos leitores, que entram em contato através da literatura”. Ambos os sentidos circunscritos pela intercomunicação como fato corrente da atualidade da literatura americano-latina atribuída ter ganho assim seus foros de autonomia. Uma mudança importante deve desde já se apreender, pois até aqui o modernismo era o que se referenciava como o acontecimento dessa autonomia - inclusive no manuais de História do Brasil o grupo da Semana de 22 é um referencial ilustrado, pois se o conceitua como fator importante da modernização republicana, já num meio de urbanização acelerada a ponto de São Paulo já ser considerada metrópole.

           Em Retamar, inversamente, a "intercomunicação" como fator assinalável da autonomia implica não ser mais como no tempo em que se podia, como Neruda -  um dos expoentes máximos do modernismo no continente - deplorar que o jovem intelectual daqui sabia tudo dos referenciais europeus, mas nada do referencial local. Agora todo intelectual do continente alinha junto a esses referenciais também uma plêiade de escritores e poetas americano-latinos.

      O conceito de intercomunicação está inserindo uma amplitude de unidade referencial. Os nomes dos autores importantes de cada país tornam-se um repertório comum no continente, e isso implica que temas, procedimentos literários e marcos historicamente discerníveis como personagens e romances decisivos, tornaram-se comuns como referenciais dessa literatura tanto para seus produtores quanto para seus receptores.
           Parece-me que se poderia dizer que há agora um mundo literário americano-latino como se diz correntemente haver o mundo do Renascimento e o mundo medieval.
         Contudo, mais à frente creio haver um terceiro matiz envolvido, e é o que estou utilizando aqui como o fato histórico de máxima importância. Uma vez que “intercomunicação” é a seu ver, "autoconsciência” Retamar observa que

no entanto esse não é um fenômeno por assim dizer interno ao continente.

          Trata-se de um fenômeno internacional, não apenas por que o boom dessa literatura implica sua exportação e exploração mercatorial, mas porque essa mercatorização mundial é o meio mesmo pelo qual a intercomunicação no continente se pode ancorar como fato histórico.

           Não seria, portanto algo novo, se “o fato de que” os leitores americano-latinos “olhando para os outros países, veem agora neles os nomes de autores nossos, e ao vê-los aí, onde antes costumavam encontrar tão somente os sempre prestigiosos nomes estrangeiros, são levados a ler e a gostar de seus conterrâneos com a anuência e quase com o estímulo das metrópoles”.

            Nós nos aceitamos agora como produtores culturais apenas pelo mesmo motivo pelo qual sempre aceitamos algo como produção cultural, o fato de assim ser ditado como tal pelo “Ocidente” – a metrópole europeia ou colonizadora. Ou, nas citadas palavras de Otavio Paz: “Pelo visto, para que uma obra seja considerada entre nós, deve contar antes com as bênçãos de Londres, Nova York ou Paris”.

          Aqui, portanto, o que estou focalizando é esse ditado da metrópole que o artigo de Retamar em seguida se encarrega de circunscrever como um fenômeno sociológico – posicionando-se em contraponto à “análise” assim atribuída, de Paz.
          A princípio Retamar destaca Foucault, em As palavras e as coisas iniciando com as palavras “Este livro nasceu de um texto de Borges”. Depois destaca o artigo de Roger Callois no Le Monde, lançado em 1965, pouco antes desse livro de Foucault, onde se diz que “a literatura latino-americana será a grande literatura de amanhã”, Callois antepondo as literaturas russa e norte-americana como respectivamente as do século XIX e da metade inicial do século XX em termos de referenciais histórico-mundiais transitando na Europa. 
          Já nesse texto, Callois fala da difusão internacional como requisito do que Retamar designou a intercomunicação: “os escritores latino-americanos só se conhecem entre si quando são difundidos no estrangeiro... Para ir da Argentina ao Brasil, a rota cultural passa obrigatoriamente por Paris, Nova York ou Moscou, e desde há pouco, por Havana”.
          Retamar nota como inserir Havana como estrangeiro da América Latina soa espantoso, mas de fato, como observamos em Hutcheon, ainda nos anos oitenta “América Latina” é uma rubrica imprecisa quando se trata da geografia cultural.
          O que não foi expresso na discussão de Retamar, nem nos artigos citados a propósito, é que o americano-latino da prosa contemporânea nem sempre faz sucesso na Europa e Eua sem estar ligado aos circuitos pensantes europeus e norte-americanos. Garcia Marquez é colombiano e o Macondo imaginário dos seus romances é sua aldeia de Aracataca, mas desde 1955 estava morando entre Europa e Estados Unidos, não na Colômbia.
             Assim também se poderia falar de vários referenciais “de margem” importantes, de modo que por outro lado, os referenciais intra-europeus e intra-estadunidenses não eram mais unitariamente europeus e estadunidenses. Hutcheon é um referencial mais rico do que Jameson quanto à literatura americano-latina, por outro lado, como vimos ela não pensou como oriental ou médio-oriental as problematizações culturais/étnicas de Rushdie e outros escritores que ela mesma trata, como referenciais da literatura de emigração chinesa. Tudo o que se compacta no mercado ocidental, para ela é um fenômeno cultural do Ocidente.
            Antes da emergência das rubricas de “pós-modernismo” e “pós-modernidade” como se não a explicitação dessa mudança, a tematização do que ela implica e as reações que provoca, mas mesmo já dentre estas reações, a constante foi movimentar-se dentro de limites já prescritos e somente aplicando-os extrair conclusões válidas. A análise sociológica de Otavio Paz, conforme Retamar, pode exemplificar a tendência, mas também a objeção a ela do próprio Retamar.
            Para Otavio Paz o “êxito” integra um vocabulário não literário mas “dos negócios e do esporte”, termo que a um escritor como ele mesmo só faria enrubescer, não devendo pois ser pensado, em se tratando do fenômeno mercadológico em questão, como algo em si mesmo, ainda que documentado estar ocorrendo ou sendo atribuído.
          Não era um fenômeno histórico-literário, mas comercial, e portanto se deveria procurar os determinantes por esse lado, não pelo lado da nossa própria produção já que sua qualidade seria vexaminoso dar-se por meritória somente agora, e inverossímil descoberta subitamente superior às demais importantes do mundo.
          A mudança fora social e não localmente estruturada: “a voga das traduções é um fenômeno universal e não exclusivo da América Latina. É uma consequência do auge editorial, um epifenômeno da prosperidade das sociedades industriais”, uma vez que “uma coisa é a literatura e outra é a edição”.
        Essa atitude de Otavio Paz, da qual compartilho,  contrasta exemplarmente com a que Oswald de Andrade, um dos  pioneiros  modernistas brasileiros e cromo dos manuais de História citou, não sem simpatia, expressa por Euclides da Cunha em 1907 - isto é, de um notório "positivista" dos tempos do cientificismo racista. Tratava-se de uma exortação. O povo robusto, primitivo, que se deixasse aparelhar com os recursos da vida contemporânea seria como “nenhum outro” aquele “mais apto a garantir a marcha, o ritmo e a diretriz da própria civilização europeia.”
       Vemos como o ethos da literatura nova não é de fato o mesmo do ufanismo de inícios de século, conexo ao que para os modernistas era sua missão histórica, compreendendo-se a meu ver como o que Robert Merton tratou na sociologia em termos de "grupo de referência" - assim como o dos oficiais de um exército é em relação ao grupo dos soldados que tem neles o espelho do futuro de suas carreiras.
          Os modernistas eram "modernizantes" - em todos os aspectos, e não apenas esteticamente. Mas aqui essa modernização implicou a tarefa de produzir a fórmula nacional da modernização industrial, mais geralmente a fórmula culturalmente integrada do sentido mesmo do progresso psico-social e humano que por toda parte, como vimos em Subirats, se pensava ser intrínseca ao advento da sociedade tecnológica.
        Para Oswald por exemplo, inspirado no capitalismo dos gerentes, o Brasil especialmente expressaria a síntese hegeliana do progresso interpretada como homem natural tecnizado - o retorno do ócio do homem natural (aborígene/matriarcado) via tecnologia que no hemisfério norte podia ter sido apenas a antítese, a racionalidade anti-ócio calvinista. Vemos que a literatura do boom mercadológico não tem muito a ver com essa tarefa ou com a interpretação de si em termos de agente da mudança social "modernizante" em geral.
            Retamar contesta, no entanto, a dedução de Paz, se bem que não demarcando algum ethos diferente do dele, considerando-a falaciosa, posto que teria que ser explicada ao invés de explicar. Por que os editores se interessam agora pela América Latina, de modo que não deveríamos crer que estivesse havendo, concomitantemente, “um auge da novelística hindu ou síria”?
         A palavra “novelística” não é aí fortuita, pois Retamar convém em que se trata de uma ênfase editorial nas narrativas, gênero facilmente comercializável. Mas justamente, não é uma novelística qualquer, e o fato dela ser a nossa é o que está em questão. Retamar deduz assim que se trata da emergência recente da circunscrição nocional de América Latina como agente histórico-mundial.
         A autoconsciência foi a princípio política, da nossa situação de explorados, portanto anti-imperialista e revolucionária. “É o espírito radical alimentado pela Revolução Mexicana de 1910 e pela repercussão da Revolução Russa de 1917, espírito expresso de maneira articulada por José Carlos Mariátegi, que dá sentido latino-americano ao surgimento da vanguarda”.
           É assim que a partir desses fatores se pode utilizar para quaisquer fins, comerciais ou culturais, uma literatura intercomunicada – digamos, para si - americano-latina, pois somente a partir deles uma América Latina existe. Então, como podemos observar, Retamar interessa-se por desfazer qualquer oposição muito grande entre a literatura nova e o modernismo. O que não implica que ele não tenha considerado como relevante a novidade do fenômeno e da própria literatura em seu artigo, mas sim que a "intercomunicação" excede o fato do auto-conhecimento, implica um novo cenário da auto-interpretação objetiva de um papel histórico próprio, sendo portanto secundado pelo modernismo e não em ruptura com ele.
        Em "Cheiro de goiaba", longa entrevista de Garcia Marquez, este declarou a meu ver um sentido bem oposto ao modernismo, na medida em que revela-se Marquez marcado pela figura, onipresente na infância, do seu avô, o que em geral implica um investimento anti-histórico, na memória enquanto horizonte subjetivo, cotidiano, não objetivo, conexo ao que seria um plano geral impessoal de todos os acontecimentos. Marquez reporta que a figura do avô tornou-se desde a infância o interlocutor permanente de seus pensamentos, logo não se trata para ele de transformar-se como agente histórico da modernização, mas de investir literariamente essa interlocução com o passado. Vimos que Otavio Paz, já interceptando a terminologia e problemática do pós-modernismo, de fato o conceituou como uma ruptura para com a "tradição do novo", modernista.
        Tal antítese  entre história e memória se expressa exemplarmente, para mim, num conto americano-latino ganhador de prêmio nos setenta, cujo exemplar com o nome do autor é uma pena que não tenho como recuperar agora.
         É importante  o tema da memória a resgatar nesse conto, que começa justamente com a consideração do personagem em primeira pessoa sobre seu avô como tendo marcado decisivamente sua infância e toda a sua psicologia, e assim ele comenta que sua vida pessoal é a repetição da do seu avô, a atualização dela, como a vida dos homens é a repetição e continuidade do modo de vida dos seus predecessores,  em vez de qualquer coisa que pudesse explicar ou ser explicado pela História em termos de mudança contínua, algo com o que para o narrador as pessoas comuns nada tem realmente a ver. Não afeta a verdade de suas experiências reais.
            Em seu artigo,  Retamar está a meu ver jogando para o outro viés da mesma auto-intepretação modernista, a nova problemática. Este outro viés entre nós foi o marxismo que estruturou - o que ilustra em Retamar a referência a Mariátegi -  em seu processo de ser apropriado culturalmente, desde o que vimos com L. Konder em termos do hiato intransponível dos primeiros ativistas imigrantes e os modos de vida populares localmente existentes.
          A evolução do modernismo entre nós foi problemática, não apenas porque se a tarefa que conceituei sendo comum a todos os movimentos, um deles foi expressamente nazi-fascista, como o "integralismo" de Plinio Salgado. Mas devido à interceptação das duas trajetórias, a dos pioneiros cultural-revolucionários como Oswald, e os marxistas já localmente assimilados em expressivos grupos e referenciais. Por outro lado, sabe-se bem que o marxismo não é um horizonte unívoco, e o problemática nessa interceptação, se rendeu formas aculturadas de luta contra a exploração bem irredutíveis ao sovieticismo, não deixou de ser acirrada pelas alas de comprometimento sovieticista para com o dogma anti-experimentalista do Realismo Socialista.















                Após a produção das três partes de Os Condenados, o engajamento comunista de Oswald, expresso na terceira parte pela composição na verdade autobiográfica da personagem de d'Alvelos,  se torna um obstáculo à sua carreira, assim tanto mais à da igualmente engajada Pagu (Patricia Galvão), que naquele romance é retratada como a "Mongol" - personagem feminina que induz d'Alvelos ao engajamento partidário.       
            Não é muito fácil, contudo, interpretar os acontecimentos a essa altura, mesmo na Europa onde o mesmo conflito se expandia.
       Há duas hipóteses ao menos: ou são os artistas que, como os surrealistas europeus “rompem com os comunistas que eram tidos como representantes autênticos da revolução política e social”, como julgou M. Nadar (“história do surrealismo”), uma vez constatado que “o homem novo, que se assegurava estar sendo edificado na URSS não difere essencialmente do homem que conhecem”; ou é o partido comunista quedesencadeia uma política reacionária em estética como com relação á sexualidade - tal como estudada por W. Reich.
          Essa hipótese é consistente com o que ocorreu em termos de defecções, à exemplo de“bons pintores como Falk” na URSS, que “eram denunciados porque estranhos `a arte soviética, partidários da 'arte reacionária da América e da França' e inimigos dos verdadeiros artistas, que por seu trabalho ajudam a edificar o regime comunista”, conforme artigo de Mario Pedrosa a propósito desse período na URSS. Contudo Pedrosa elogia Falk como expoente das mais preciosas conquistas formais em trânsito na Europa ocidental na mesma época, tornando assim a retórica de justificação partidárias das defecções mero pretexto à  perseguição política.
           Falk, segundo Pedrosa, integra o elenco de vários artistas que se tornaram perseguidos pelas autoridades soviéticas a partir da exposição de princípios do sixties que haviam conseguido produzir lá, com quadros que revelavam influências dos impressionistas (Manet) e modernistas (Gauguin, Matisse, Picasso).

        Na verdade, a censura incide na União Soviética desde a viragem ao stalinismo, já tendo erradicado o experimentalismo desde os anos trinta em diante. As artes plásticas foram solvidas em utilidades propagandísticas do regime - até por adesão de uma parte dos artistas após o futurismo de Maiakovski; a concepção de literatura devia apenas ser utilitariamente ligada aos interesses da "humanidade" nova, o proletariado marxianamente conceituado como a evolução psico-social da história da espécie e stalinianamente representado pelo pcus.
          Em todo caso, sentia-se já na década de quarenta, como Pagu, indignação. Taxando de escravização a submissão exigida dos artistas pela “focinheira partidária” comunista às suas palavras de ordem, indagava ela: “como pode um escravo lutar pela liberdade dos outros”?
            O atributo de escravo aqui me parece enigmático. É justamente ao escravo que compete lutar pela liberdade, e não quem já está livre.
            Mas isso podemos colocar em ressonância terminológica com a crítica da cultura rousseauísta radicalizada desde Oswald de Andrade, numa versão local de Nitzsche, pelo  que toda "cartilha do escravo perfeito" que eram as culturas oficiais religiosamente informadas, expressavam apenas a "moral da cegonha" como dominação do patriarcado - emendando as revelações do "The Mothers" de Briffault e as de Malinowski sobre os povos do Pacífico, com o cavalo de batalha anti-straussiano pela manutenção do esquema de Engels e Marx, onde a luta de classes emerge na história como possibilidade desde a transformação patriarcal da família pela apropriação das mulheres pelos homens para servirem de vínculo hereditário do patrimônio, ou seja, pelo advento da propriedade privada. Consequentemente, onde se pode inserir uma versão do matriarcado como outro da mentalidade sexual e psico-social.
        Assim, como podemos observar, a interpretação de Retamar contempla um processo autêntico de interceptação culturalista-nacionalista da própria retórica revolucionária.
        Mas pela altura do pós-guerras, o rise estruturalista  só fez afirmar-se, e entre os sixties e eighties expande-se muito localmente, tendo os anos noventa sido palco da inserção maior do pós-estruturalismo por aqui.
          A princípio, contudo, o "concretismo", que corresponde à vanguarda ou continuidade do modernismo nessa época, forma apenas uma tendência, não muito a fim à literatura nova que estamos examinando. Para alguns, o concretismo assinala a verdadeira vanguarda no Brasil, porque inseriu programática e radicalmente a quebra da sintaxe. Em vez disso, porém, o que estamos constatando como boom mercadológico que internacionalizou a recepção da produção americano-latina demarcou-se por uma "originalidade" que só o era por estar investindo as raízes culturais não europeizadas, propriamente "nacionais" nesse sentido.
        Essa havia sido uma das bandeiras programáticas do modernismo de Mario e Oswald, mas como vimos, o investimento "antropológico" deles não vinha senão envolto paradoxalmente em objetivos modernizantes. Isso não deixou de estar bem equacionado na crítica local. As duas formas de interpretação do fenômeno podem ser apreciadas nos encaminhamentos, por um lado, de Enriques e Xirau; e por outro lado, de Jítrik e Fernando Alegria.

          A problemática jamesoniana da alegoria nacional como ausência de Split público-privado numa margem que não havia ainda feito a transição ao Estado constitucional pleno, pode ser contrastada proveitosamente a esse horizonte crítico. Na verdade essa ausência não é algo constatável na margem sem ter primeiro sido nos próprios Estados Unidos, na medida em que como demonstrou muito bem David Halberstam, o conservadorismo político dos"republicanos" implica nessa mesma confusão - ver especialmente o estudo sobre o Los Angeles Times. 
          A princípio, contudo, podemos notar que um problema na caracterização generalizante demais da margem, em Jameson, é que não é possível entender bem se os referenciais de Jameson são  modernistas típicos  ou somente expoentes da literatura recente, e Lu Xun ou Ousmane integram processos literários não muito conhecidos entre nós.
          Aparentemente, Jameson tencionou fornecer uma teoria tão ampla para a literatura do terceiro mundo como basicamente não "ocidental", que qualquer diferenciação interna do seu processo não poderia ser obtida.
           Se for assim, nada mais oposto à realidade dos processos literários nacionais americano-latinos, cuja autonomia como fator metodológico do seu estudo é o objeto mesmo das suas lutas, como dos Românticos e dos Modernistas, contra a metodologia de tratá-los como epifenômenos dos movimentos ocidentais, cópias sem relevância de originalidade qualquer - temática, estrutural e do léxico.
          Assim a demarcação jamesoniana de um discurso literário da margem poderia ser visto como mais um degrau na ascensão à autonomia, desta vez tão já avançada a ponto de ser reconhecida pelo próprio Centro ("Ocidente"), mas de fato como vimos trata-se de um retrocesso à sua caracterização como infantil, ou oralidade não objetivamente realizada.
        Uma reação a essa concepção jamesoniana no Oriente, tal como a de Aljaz Ahmad, não foi, como poderíamos esperar aqui, no sentido de afirmar a autonomia do processo literário ou cultural local. Pelo contrário, foi uma defesa da Ocidentalização do Oriente como já realizada e exemplificada pelo próprio status da autoria  enquanto marxista, do texto de resposta a Jameson. Ali a própria concepção de uma realidade geopolítica do "terceiro mundo" foi contestada pela suposta como tal objetividade do processo universal da luta de classes na era do capitalismo planetário. 
           A meu ver, Jameson não estava ignorante da ocidentalização na margem, mas sim argumentando dentro do que entendeu estar sendo o debate local daquele momento de transição aos eighties, polarizado em torno de uma interpretação nacionalista ou marxista do rumo dos acontecimentos recentes em prol da articulação das estratégias consequentes.
        Essa polarização realmente estava em trânsito, até mesmo em torno da até aqui generalizada concepção da luta local entre interesses dos empresariados nacional e internacional/cooptado  - que um novo marxismo, desde os tempos mais tardios dos setenta, estava querendo desqualificar para viabilizar uma versão do capitalismo como forma constante universal.
            Para uma apreciação dessa polaridade, está bem resenhada em Paul Singer ("Economia política da urbanização"), que se perfila à opção contrária à versão dos dois empresariados que me parece  historicamente a correta -  ainda que após os eighties obviamente já se esteja num outro contexto, o de "industrialização complementar" transposta a própria fábrica, à margem, mas apenas por vantagens estratégicas das multinacionais e capital central. Em todo caso isso implicando ruptura radical com a Dit em suas versões tradicionais, e um novo contexto da divisão do trabalho internacional.
         Desde então o próprio mapa geopolítico define o conflito Norte-Sul, porém, em vez de alguma solvência do problema da margem em si, enquanto todo horizonte "desenvolvimentista" futuro da margem se exauriu.
          E no Brasil, só desde que este mapa tem estado oficializado nas escolas com o terceiro milênio, substituindo o antigo modelo tripartido em mundos desenvolvido (1º), comunista (2º), e terceiro mundo escalonado entre países "em desenvolvimento" ou "subdesenvolvidos", é que o "pós-moderno" entrou, também, como terminologia permitida dos manuais -até então o pós-modernismo era mais habitualmente negado como fenômeno ou criticado como mero retrocesso ao Realismo.
         A meu ver, o mapa que divide apenas o hemisférios Norte (desenvolvido/ centro/ocidente) e Sul (subdesenvolvido/ margem/ocidentalizado ou não) por uma "linha de pobreza" equatorial, coloca não só a  indiscernibilidade entre tratar-se de uma mesma dominação mundial do capitalismo central, ou de dois mundos correspondendo a a prioris irredutíveis. Mas também uma falsa generalização - porque de fato, o regime comunista continua a haver em países tão importantes quanto  China e Cuba, entre demais exemplos.
         O que realmente ocorreu, e pelo que eu designo o novo contexto de "deslegitimação", é que não há mais correlação alguma na margem entre maior ou menor capitalização e maior ou menos proximidade ao horizonte sócio-cultural e político do "desenvolvimento" modelizado em termos da realidade histórico-social do Centro (Europa e Eua).
           O Centro generalizado para todo hemisfério Norte inclui a Austrália, não obstante, e a realidade geopolítica que retrata mal ou bem o mapa, é apenas o paradigma do capital Central, multinacionais, FMI e outras instituições, ao processo histórico europeu e hegemonia norte-americana pós-soviética - assim o Centro pode ter se expandido ao Japão, aos tigres asiáticos, etc., sem comprometer a solidariedade nocional "centro" e "ocidente".
         A União Europeia, estudada como um novo cenário do protecionismo agora em bloco, como visou Wilson Cano ("A nova des-ordem internacional"), integra a realidade do novo capital barbaramente intervencionista (como no enforcamento de Sadam Husein) e toyotizado, que no entanto na margem é apregoada falaciosamente como planetarização de uma mesma cooptação aos mesmos agentes dominantes multinacionais em todo o mundo. Como notou Dreyfus num estudo mais recente, a defasagem por hora de trabalho de uma mesma multinacional na Europa e no Sudeste asiático é de aproximadamente vinte dólares para um dólar.
           Assim o "índice de desenvolvimento humano" (idh) como novo parâmetro internacional do desenvolvimento,  não muda para equiparar-se a uma sociedade desenvolvida nesse sentido, e continua não obstante saltos de capitalização, a flagrar defasagens crescentes e gritantescas de desigualdade social, de oportunidades, de acesso cultural, atendimento médico/sanitário, etc.
        Por exemplo, se em todo mundo a planificação midiática interferiu negativamente com a difusão teórico-crítica, não obstante no Centro isso foi acompanhado por incremento populacional do acesso à educação, o que na margem foi exatamente o contrário, a onipotência da mídia na "deslegitimação" correspondendo a uma defasagem sem precedentes na qualidade e acesso educacional. 
           Tem sido constatado, com o mega-favelamento do ambiente urbano desde os anos noventa, retorno de formas de marginalizações  escolares, concepções  europeizantes da cultura,  preconceitos de todo tipo  que não mais existiam há décadas, desde o modernismo em diante - tudo isso junto com novos procedimentos de "colonização" por imigração massiva a regiões do país,  que onde quer que se verifiquem se acompanham do espantoso processo de discriminação da população nacional local que se torna menos favorecida até na obtenção de empregos - como foi constatado na região Sul. Esses procedimentos finalmente invadiram a mídia que se tornou ela mesma um instrumento de propagação de estereótipos segregacionistas.
           Em geral, o que ocorreu foi surgir uma lacuna espantosa de qualquer registro daquilo que era o referencial sedimentado pelo modernismo, da história e população local em termos de processo de miscigenação de portugueses, etnias aborígines e etnias africanas, com incremento progressivo de outras etnias brancas e orientais,  tal que desde o século XX eram pensados como extratos de uma mesma população miscigenada, sujeito de uma história própria, a desse processo e seus constituintes. Agora não mais, porque se voltou a lidar com protótipos identitários estanques. Esses protótipos de tipo fascistizante de agora não são, portanto, o mesmo que estava sendo estudado como literatura nova entre os sixties e seventies.
             A meu ver,  Jameson não deixa, não obstante o que vimos sobre a atualidade de sua posição no debate da época, de estar contraditoriamente afirmando um capitalismo multinacional e a possibilidade do nacionalismo manter-se em alguma parte - o que Ahmad pode ter judiciosamente enfatizado em sua crítica, como a de alguém que tinha por anos recebido o Ocidente pela visão jamesoniana e que agora se sentia marginalizado justamente por ela.
           Contudo, se entendemos o "consenso do corporate state", pode ser que isso, e não tanto a defasagem jamesoniana a propósito da realidade da expansão urbano-industrial por todo o mundo, seja o que Jameson está expressando em sua perspectiva.
         Em nossa apreciação da crítica americano-latina, o confronto da concepção  jamesoniana torna importante considerar o papel que o Realismo desempenha conceitualmente na controvérsia  suscitada pelo novo ambiente da produção literária.
           Lembrando que logo a seguir essa mesma produção estava integrando  de fato o elenco de exemplificação do "pós-moderno" para referenciais não jamesonianos, em que o pós, contudo, como vimos não começou por ser interpretado como exaustão da fronteira ocidental de produção cultural.


             A opção teórica local da literatura recente havia se concentrado nas hipóteses de um "outro realismo" como nas perspectivas teóricas de Jorge Enrique ("O realismo de outra realidade"*) e Ramón Xirau ("Crise no Realismo"*), porque se restaurava a sintaxe após o modernismo, era apenas para reconstruir a experiência de mundo de personagens autênticos em sua outridade psico-social em relação à normalidade realista ocidental; ora tendeu a ser tratada como variante da vanguarda, como para em Jítrik e Fernando Alegria. (O asterisco informa artigos integrantes do volume América Latina em sua literatura, ed.Perspectiva, coleção estudos).
         Quanto ao enfoque de "outro realismo", ou "realismo de outra realidade", o que surpreende é que ambos os autores que assim o conceituam, o Realismo se tornou uma espécie de fórmula geral da trajetória literária local até o presente, em vez de uma cisão mais radical para a cena modernista.
          Especialmente o segundo momento modernista, designado Regionalismo, já não o momento de Oswald e mas afim ao mineirismo de Drumond , realmente foi interpretado no Brasil, como pelo próprio  Oswald, como um recuo à linearidade da composição que para ele, uma vez que se rompa com o léxico standard e com a visibilidade da civilização para reconstituir a heterogeneidade local, não se conserva, mas se revoluciona. O regionalismo foi seguido por uma prosa introspectiva e mística, como em Cornélio Pena.
            O concretismo restabeleceu o investimento revolucionário da linguagem, mas de um modo abusivo de todo parâmetro intrínseco às realizações não atuais que deviam apenas ser consideradas pela afinidade à sua proposta de abolição do verso e investimento unicamente do significante como na propaganda - tudo o que no passado parecesse ter se limitado à exploração de efeitos de aliteração por exemplo.
           Clarice Lispector é um ponto alto nessa época, e ficou referencial a críticos que recusaram, nos anos oitenta, a literatura de experiência pessoal em estrita ressonância ao que vimos ocorrendo em vários países, especialmente na Alemanha segundo Huyssen.
          À altura dos anos setenta, em que Enrique e Xirau se expressam, não é só esse o parâmetro que para eles é comum, mas a meu ver manifesta-se algo importante no enfoque, que para mim parece camusiano, dos seus referenciais - de Borges a Glauber Rocha e muitos referenciais de expressão associada ao modernismo. O interessante é que naqueles anos, o Novo Romance e manifestações associáveis ao rise estruturalista estavam expressamente se incompatibilizando com Camus e Sartre. Inversamente, na visão desses críticos era ainda uma espécie de mito de Sísifo - o homem da margem em seu dilema de natureza e cultura - o "destino comum da América Latina", na expressão de Enrique.
      Na visão de Jítrik e Alegria, inversamente, a literatura recente prolonga o investimento da vanguarda em termos de desmontagem dos esquemas estruturantes dos gêneros e espécies literárias, de modo a quebrar a expectativa do texto realista em nível semântico-pragmático, numa série de "antis", como no tratamento de Alegria ("Antiliteratura"*). A antinarração; o  antiteatro dirigido contra o "homem-poltrona" crente da cumplicidade da arte com seus preconceitos e discriminações, como no cubano Virgílio Piñera, os argentinos Abelardo Castillo e Dalmiro Sáens, Jodorowski no México e vários outros citados; e a antipoesia, como especialmente em  Nicanor Parra.
        Aqui a continuidade à vanguarda se expressa como índole voluntariamente destrutiva das consequências esperáveis da verossimilhança do texto realista, de modo a quebrar a sintaxe e destruir a unidade de referência. Ou como produção tal como analisável na obra de Macedonio Fernández ("Museu de la novela de la eterna), considerada por Jítrik "o livro que inaugura a grande mudança de orientação consciente da literatura latino-americana deste século".
          Nessa via, Jítrik em seu artigo "Destruição e formas nas narrações"*, do mesmo modo pressupõe "a destruição dos limites do gênero" que vindo segundo ele de Joyce e Artaud, apenas estaria possibilitando a autonomia estética que em se tratando da arte verbal resultaria na "literariedade" como "tendência para produzir uma forma a partir de certo material verbal", com mudança na função do autor que se torna assim o agente de uma "montagem".
          Essa mudança na concepção do autor é importante, como se nota pelo fato de ser variamente tematizada na época, em Merquior ("Situação do escritor"*) e  Juan Jose Saer ("A literatura e as novas linguagens"*). Merquior realiza um enfoque histórico-sociológico das mudanças de papel do intelectual desde a colônia para apenas estigmatizar todos os papeis até a atualidade onde, não obstante, é somente o fato do escritor ter se conscientizado da incompatibilidade da literatura como crítica social em relação aos valores ideológicos vigentes, o que torna a literatura algo digno.
         Mas entre o formalismo como epigonismo de tudo que já se havia feito na Europa, um retorno ao realismo imediato e banal como solvência de todo parâmetro da qualidade estética, nada se salva.  Não obstante, essa conscientização pode se expressar numa forma parecida com o retorno do realismo, e na verdade sendo uma antiliteratura, para Merquior, como entre João Cabral de Melo Neto e César Fernández Moreno.  Merquior detectou um novo situamento do drama coletivo do escritor local em sua dependência de migração.
         Antes, migrava-se para europeizar-se e isso era motivo de orgulho. Agora estava-se forçado ao exílio pelas ditaduras militares e isso era um motivo de grande sofrimento. Na verdade, como se sabe, os que conseguiram exilar-se, como Gabeira,  escaparam assim da tortura e eliminação pura e simples pelos paramilitares e Doi-Codi, a polícia política encarregada da repressão mais brutal aos expoentes da cultura local por todo o continente.
         Saer, inversamente, focaliza o novo papel do escritor num parâmetro em estreita relação com o experimentalismo, a meu ver propriamente barthesiano. É interessante notar que Barthes realizou um novo critério do caráter aberto da arte em contraste ao que seria o caráter fechado da mídia, não obstante o fato de que ambos são produções do seu material, e não ocorre que a mídia justaponha natural ou espontaneamente ilustração e texto.
        Assim, o fato da mídia realizar a produção para construir um sentido único de leitura, enquanto a arte pelo contrário, produz uma aparência de unidade para no entanto desconstruir a homogeneidade das interpretações possíveis, é para Barthes o critério que permite definir como opostas essas duas formas da mesma coisa, a produção ou montagem de fatores integrantes, como aquilo de que decorre a semelhança de algo único como um texto. O pop brasileiro, especialmente Ligia Pape, investiu expressamente a desconstrução do "pre-significado unívoco" da mídia, explorando como artístico, no entanto, justamente as potencialidades além dos sentidos comuns, da tecnologia das novas artes, como o vídeo e já o cinema.
        Conforme Saer, o escritor se torna produtor do texto, na medida em que busca continuamente "um presente novo no qual a experiência renasça, para que em seu interior a literatura tenha lugar (até mesmo na conotação espacial da palavra)".  Mas inversamente aos concretistas, em Saer esse é um parâmetro que torna a literatura e o experimentalismo em contraste total com os mass media, cuja relação com o literário é ser uma "força de detenção" , um obstáculo à produção, tal como a moda.
           Não obstante parecer que a moda, tal como essa arte autêntica, é uma "mudança perpétua" por sua "aparência de fluidez", na verdade "estabelecida a individualidade do objeto, produz-se um parêntese de imobilidade no qual o objeto começa a repetir-se a submeter-se a uma falsa metamorfose, permanecendo no fundo idêntico a si mesmo, numa espécie de interioridade estanque, como um inseto que agita suas asas brilhantes cravado com um alfinete sobre uma folha branca, que se mexe e se agita sem progredir, com os mesmos movimentos de vôo. A moda, que se apresenta sob a máscara da singularidade, domínio típico da poesia, é contudo a inimiga da singularidade...", e nesse tom Saer prossegue para caracterizar a moda como alguma coisa de grotesco e brutal recalque da independência do espírito.
         Na verdade, Saer haure de sua posição sobre a vanguarda um critério que lhe permite julgar adjetivamente entre um e outro vanguardismo. Assim é ácido crítico de Cabrera Infante, quem para ele exemplifica o tédio porque "a vontade de fazer vanguardismo não pode impor formas novas a matérias que não o exigem" enquanto "James Jouce não fazia literatura de vanguarda para mostrar-se moderno: transgridem-se as leis tradicionais da escritura para que as novas leis internas da obra nascente se adaptem a uma forma que o escritor já entreviu no mundo. Quanto não era necessário, Joycve não era vanguardista, como o prova o Camber Music."
        Pode haver alguma contradição, a meu ver, entre a busca de um presente novo e a adaptação à necessidade do referencial. Em todo caso, vemos que essas opções da crítica americano-latina contemplam um fenômeno que não tem paralelo com o que hoje em dia se anda praticando aqui sob o vocabulário de "identidade", que não se define entre o público e o privado.
           A surdez, por exemplo, está sendo proposta por alguns como "identidade surda", com a consequente suposição de que os surdos só devem ver televisão guiados por um profissional de libras que lhes impede qualquer visibilidade livre da tela, como o teriam se dotados os programas de legendas em close caption. Como deficiente auditiva, protesto veementemente contra isso que a meu ver não passa de oportunismo dos piores, mas é a mesma coisa para vários situamentos "identitários" - e além disso, dada a escalada inumada de violência na televisão, eu não a assisto mais. A identidade é assim, como antes a raça no positivismo do século XIX, uma mistura impossível de fenótipo, condição física, etária, sexual - o que impede qualquer tangência das questões da subjetividade.
        O que não implica que, pelo fato desses situamentos reducionistas como em movimentos étnicos e de outros, se desconheça aqui o novo sentido de que a negritude por exemplo, tem se revestido como parâmetro justamente não "identitário" - o texto de Henry Louis Gates sobre o macaco significador tem circulado livremente, e durante os anos noventa esse novo sentido estava sendo bastante comentado na crítica.
         Quanto ao infeliz paradigma identitário de hoje, pode ser que decorra do que nos pareceria o vaticínio do "alegórico" no terceiro mundo, mas igualmente poderia ser o particular coletivo de Hutcheon. Em todo caso, com certeza não se trata de nacionalismo, mas da decorrência da forçada desnacionalização.
         A meu ver, decorre assim da deslegitimação onde imperam a banalidade e simplicidade inacreditáveis dos esquemas inteligíveis - como na inflação do episódio Sokal cujo significado é nulo, pois que pode ter a ver o julgamento de um editor de revista sobre um único artigo, com a produção de inúmeros profissionais representativos da produção acadêmica no mundo inteiro, e em tendências as mais variadas de estudos ao longo de décadas, cuja importância perfaz a história da cultura recente?
         Sokal surgiu para o editor como um profissional respeitável em sua área, e além disso, nunca ninguém supôs que apresentar temas de interesse implica alguém que nunca errou - o que qualquer adulto sabe ser humanamente impossível. Mas essa banalidade e infantilidade indicam em todo caso a midiatização dos contextos e ao mesmo tempo a compactação da mídia por políticas que não são necessariamente o que decorre da tecnologia.
          O que eu pretendia abranger no terceiro item pode ser agora aproximado em termos dos recuos teóricos e limite da teoria da ideologia -como um Romantismo à Subirats, promovido a partir de uma Poética nada menos que Aristotélica. Esses tópicos, contudo, pretendo agora desenvolver em outro lugar. Pelo exposto creio ser suficiente notar que a realidade do algoritmo geoegológico da Assimetria Internacional do Capital não implica um Real como a dos "realistas" - assim como poderia satisfazer um filósofo, um Real em si substancial, e sim apenas o que as pessoas fizeram em contextos sociais de Poder e cultura que tanto mais podem ser revertidos no seu caráter deletério das liberdades, direitos civis e ecologia planetária, quanto mais conheçamos sua efetividade.

        Documento Finalizado em 04/08/2013.
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